Hoje no almoço ficamos debatendo sobre marcas e mercado, porque eu acho injusto não haver marcas que se identifiquem com mulheres como eu, e como muitas amigas minhas, até as marcas alternativas, às vezes, seguem o caminho traçado para entrar no mundo globalizado… E isso é muito complicado, porque apesar de tudo, como vivemos numa sociedade de consumo, e consumo é identificação com a marca, que é uma imagem, a única que chega perto é a Dove, mas a campanha publicitária dela é para produtos de bebês. A Nívea me mata de vergonha alheia com a coitada daquela mulher no salto alto, de um lado carregando o bebê, do outro falando ao celular (veja aqui!), no mínimo, doentia uma imagem daquelas. A da Ypê que eu vi essa semana me deixou extremamente chateada, algo relacionado aos super-poderes femininos, que a mulher é uma faz tudo, e o cara não consegue dar um nó numa gravata, enquanto ela faz tudo. ME POUPE. Chega de propaganda com esses machos inúteis, e de usar isso a favor da mulher, num discurso de que somos melhores porque damos conta do universo e os homens não dão conta de nada, “tadinhos”, só conseguem trabalhar fora… Machismo é uma coisa tão ruim, que é ruim pra todo mundo, até pra quem reproduz o discurso achando que se dá bem com ele.

Quando eu engravidei, eu tinha muita teoria, sempre gostei de ler coisas aleatórias, mas sempre dialogando com a psicologia, mas isso nem importa, eu tinha muita teoria sobre o machismo, o feminismo, sobre opressão, e sobre escolhas e responsabilidades.

Sei que o lugar que ocupamos é um lugar escolhido, apesar de não nos darmos conta dessa escolha o tempo inteiro, e também de parecer que temos inúmeras possibilidades, e isso nem sempre é verdade, porque nem conhecemos (ou nos damos o trabalho de conhecer) o resto. Escolha é um exercício de liberdade que está intimamente ligado à consciência e conhecimento. Algumas descobertas são dolorosas, por isso eu sempre recomendo análise pra todo mundo, e análise reverbera tanto na nossa vida, que de vez em quando eu sinto algo rasgar dentro de mim, dilacerando toda a minha antiga certeza, e eu precisando me refazer rapidamente, pois agora o tempo é outro, e eu não posso mais ficar trancada no meu quarto remoendo meus cortes, e nem sair à noite pra tomar uma cerveja e falar sobre isso com meus amigos, até que me iluda achando que parou de doer.

Eu achava que sabia, eu achava que me conhecia, eu achava que era livre. Até engravidar. Quando eu engravidei eu senti o peso, um peso enorme, do que é ser mulher num mundo em que ser mulher não vale nada se você não provar que é tão boa quanto um homem (oi?), num mundo em que acreditam que ser mulher é frágilidade e fraqueza, sinônimo de ser passível de abuso, uso e ser subjulgada. Quando eu engravidei, eu me perdi nas minhas certeza, pois eu senti, aquele peso, peso de achar que fracassou no que as pessoas dizem que deve ser a vida para uma mulher ser bem sucedida no mercado de trabalho, o peso de achar que fracassou porque vai ser mãe. Como se mãe, por ser algo do feminino, fosse sinônimo de fracasso. E eu entendi muita coisa, quando tive meus primeiros meses de aceitação, e quando me permiti mergulhar em mim mesma, com tudo, pra emergir como mãe. Como a flor de lotús, que sai de águas pantanosas, sabe? Pairou um peso que eu não sabia que era tão forte assim. Tinha dias que eu não conseguia respirar ou descansar. E não por estar infeliz em ser mãe, mas por não entender porque essa sensação de ter errado me perseguia, se eu tinha tanta consciência que ela era fruto de um sistema que impõe às mulheres que para ser tratada por igual, elas devem ser iguais aos homens, e tudo aquilo que remete ao feminino é fraqueza. O problema é que isso é tão presente que parece que tá nas nossas entranhas.

O peso da maternidade não é por ela em si, claro que cuidar de outra pessoa que depende de você em tudo, e que você passa a ser um corpo emprestado à outro para que ele exista, cansa, e exige de você toda sua presença, mas o outro peso, o peso emocional, a dor, o medo, a frustração… Esse peso não é a maternidade que traz, mas os olhares, o julgamento, o discurso que sua vida agora vai mudar pra pior, mas relaxa que o amor compensa, as outras mulheres comentando o quanto dá trabalho, que você não vai dormir, que você vai deixar de ser você… Você se perde, você tem medo, porque as próprias mulheres, inclusive as que já são mães, repetem pra você que ser mãe é perder tempo, perder vida, perder um futuro brilhante. E tudo isso, porque se joga a criança inteira nas costas da mulher… Porque os homens não conseguem dar um nó na gravata, enquanto a mulher dá conta do mundo.

E foi pensando nisso que comentei hoje com meu marido como é difícil se as próprias mulheres que podem usar sua imagem de mãe naquilo que fazem, escondem, e só usam quando isso combina com o que o mercado aprova e deseja. Só que as mães já estão enclausuradas em tantos discursos, que saber que outras mulheres bem sucedidas tem filhos, e conseguiram ainda que tivessem filhos, porque brigaram pra ter apoio, brigaram pra dividir responsabilidades, brigaram pra compartilhar cuidados, brigaram pra ter um espaço, brigaram pra que as engolissem porque elas tinham filhos… Talvez o pontapé sejam esses pequenos movimentos de empreendedorismo materno, que resgatam a mulher que fica acuada, pois depois de ser mãe, você não pode ser mais nada. Eu só queria muito que as mulheres que estão a frente de algumas marcas, sejam capazes de não anular sua maternidade em prol do mercado, mas o contrário. Fortalecer a maternidade para mudar o mercado. Porque o mercado é volátil, e a vida que se perde em nome dele?