Um dia desses vi um compartilhamento falando de um dos meus posts, e achei interessante o ponto de vista da pessoa que compartilhou. Ela dizia que falamos da maternidade com muita poesia, e deixando de lado os traumas, como se fosse possível crescer sem traumas, e que os traumas são necessários. Foi com um post que eu fiz, descontextualizado, pois era um recorte de um debate na internet sobre as possibilidades de ser mãe, e que você pode escolher mergulhar numa viagem de autoconhecimento, para tentar ser melhor, como eu já disse uma vez, as minhas escolhas sempre passam por duas questões: que mundo eu desejo pro meu filho, e que filho eu desejo para esse mundo.

Muita coisa mudou na minha vida, e eu percebo que eu e meu marido estamos cada vez mais próximos e coerentes com nossos desejos e nossa responsabilidade enquanto pessoas, porque o mundo não é dos outros, é nosso. Aqui pelo menos essa pauta sempre foi muito debatida, desde criança presencio debates calorosos sobre questões sociais-economicas-políticas-ambientas-culturais e afins, sou filha de professores de humanas, meu pai professor universitário e minha mãe diretora de escola pública.

Eu sei também que quando eu falo de acolhida, de apego, de cuidado e de respeito, muita gente lê e pensa que eu estou falando de permissividade, falta de limites e afins, porque passamos a vida inteira achando que limite é o contrário do amor. Basta ver quantos pais acreditam que dar limite aos filhos pode perder o amor deles, ou vai ser o “lado ruim” da história. Associamos autoridade ao autoritarismo, e são coisas distintas.

Todas as nossas ações enquanto pais partem da nossa percepção do mundo, e principalmente da bagagem de vida que carregamos. Então as associações que fazemos de posturas e significados é resultado do que vivemos, e isso que vai definir o caminho que vamos trilhar. E é exatamente por isso que eu afirmo que ter um filho é uma oportunidade ímpar de se autoconhecer, pois a cada passo que você caminha enquanto mãe (falo mãe, pois também falo de mim, mas pode ser pai, avó, avô…), você se depara com seus detalhes, com seus fragmentos, com seus medos, com seus pesadelos, é quase como voltar a acreditar no homem do saco! Todos os dias uma memória minha retorna, da minha infância, principalmente de sentimentos, mas também sei que muito de tudo o que me acontece e das reflexões que faço não se dão apenas pela minha formação acadêmica, mas tem busca pessoal de conhecimento de mim mesma que faço desde adolescente. Entrei na terapia logo que decidi por psicologia, para conhecer como era, e depois, por perceber que mesmo que não tenha grandes traumas, sempre existe alguma coisa que ficou ali, escondida, sem ter sido digerida, e retornava vez em quando em algum comportamento, e principalmente em angústia.

E aí eu digo, não há lirismo na maternidade, e muito menos existe a possibilidade de dar conta de tudo. Quando a psicologia e a pedagogia falam sobre a infância, sob seus aspectos psiquicos e congnitivos, foram anos de estudos acumulados para compreender que existem formas de educar, formas de fazer, formas de apoiar e de criar, que não vão anular os possíveis traumas, já que nascer é um, mas vão fornecer subsídios para que essas crianças cresçam com mais criatividade para lidar com seus problemas, para que as crianças se tornem adultos mais autônomos, independentes, e menos egoístas. E que sejam capazes de perceber seus calos, e de buscar ajuda por isso, ao invés de transferir todos seus medos às todas as suas relações. Quando a psicologia orienta, não significa que vai funcionar tal qual, pois cada um tem uma história, que vai interferir no fazer… Por exemplo, quando a gente orienta aos pais que eles precisam ouvir seus filhos e estar mais presentes, muita gente não sabe ouvir, e menos ainda se fazer presente. Dessa forma, a orientação fica vaga, pois não tem sentido. Ou então vai tentar ouvir e ser presente de maneira tão mecânica, porque não aprendeu a fazer isso espontaneamente, que também não vai chegar a lugar algum, pois a criança vai perceber que não há disponibilidade no ato. Quanto mais vigilante estivermos, mais mecânicos no nosso cotidiano. A disponibilidade flui quando você está desatado dos nós que te impedem de se relacionar com outros de maneira plena. E esses nós são percebidos e desatados quando você se permite viajar na própria história, vasculhar os próprios detalhes, e fazer as pazes com sua infância e seu passado.

O trauma sempre vai existir, porque há necessidade de se dar limites, e há necessidade de se amar. Ora, quando você diz não a criança vai chorar, e vai ser um pequeno trauma, pois sua vontade não foi atendia, mas quando você não diz o não, há um trauma, pois a permissividade pode ser encarada como falta de amor, ou ainda a criança se sente desamparada diante de todas as possibilidades que a vida mostra, sem que ela esteja preparada para escolher por si mesma, pois nem saber quem ela é ainda ela sabe.

Como disse, não adianta orientação nenhuma, se não for feita através da reflexão, e do questionamento. E não existe quem dê conta de realidade, a ponto de prevenir todos os possíveis sofrimentos, que são inerentes à condição humana. Ao existir, somos fadados ao destino de sofrer, em algum momento, por alguma coisa, pois para emergir enquanto sujeito, se faz necessário a falta. A falta que se inscreve em nós, e nos movimenta para a vida e o desejo. Sem falta, não há vida.

Os traumas são inevitáveis, mas não significa que devemos levar a vida tão dura, tão limpa e seca, e também que precisamos causar os traumas, né? Estamos aqui para fazer as coisas mais leves, encontrar alternativas que preencham nossa falta inerente, com amor, com afeto, com esperança, com fé. Talvez seja por isso que existem os bebês, para nos lembrar que existe outra maneira de fazer, que sempre existe amor para preencher e transbordar.