A culpa é um sentimento cheio de nós, e emaranhada na gente antes mesmo que sejamos mães. Por milhares de razões, em algum momento, sentimos culpa. E quando a mulher tem um filho, parece que a freqüência desse sentimento aumenta exponencialmente. Ora é a alimentação na gravidez, ou os cuidados com a mama, ou a escolha do parto, ou a amamentação, a escola, o tempo, a volta ao trabalho, e mais um exagero e acúmulo de atividades que aumentam as culpas no decorrer dos anos.

A culpa materna é multifacetada, e cada nova fase dos filhos, novas escolhas devem ser tomadas, que quando tomadas sem convicção ou certeza, geram uma angústia imensa sobre as escolhas feitas. E diante do não saber o que fazer, ou que escolha tomar, muitas acabam buscando ajuda em livros, manuais, e tentando aplicar técnicas de maternidade ao dia a dia, o que alimenta ainda mais a frustração, pois cada pessoa – inclusive os bebês – tem ritmos e formas de agir/reagir distintas, o que faz com que qualquer norma sobre a maternidade seja falha, e por ser falha, gera ainda mais conflitos na mãe, que já se encontra desesperada acreditando na sua incapacidade de criar e cuidar do seu filho.

É muito importante que cada mulher tenha em mente que ela só se torna mãe depois que o filho nasce, e é só quando se tem filhos que se sabe que mãe se é, e, às vezes, há uma distância muito grande entre a mãe que somos e a mãe que queremos ser. E essa mãe real vai existir de acordo com a mulher, de acordo com as questões que cada mulher possui, dos medos que cada uma tem, da maneira de encarar a vida, a realidade, as frustrações; e a forma como cada uma lida com o dia a dia vai construindo a mãe e seu lugar. Por isso que ter filhos é uma oportunidade linda de autoconhecimento, pois as coisas mudam a cada instante, e é necessário se conhecer para compreender o porquê de tais atitudes, compreender porquê certas coisas incomodam, e mais ainda, reconhecer, compreender, e cuidar do sentimento de culpa. A culpa pode ser uma grande aliada para as mães que se permitem ouvi-la, saber de onde ela vem, e o que ela quer dizer. Quando sentimos culpa, muitas vezes é pela dúvida, e duvidando do que estamos fazendo, podemos buscar mais informações e apoio para termos segurança na maternidade. Claro que ninguém quer se sentir culpada, mas negar a culpa e seguir sem ouvir o que incomoda, a si e à criança, é perder a oportunidade de amadurecer enquanto pessoa, e conseguir chegar mais perto daquilo que se espera ser.

Quando buscamos seguir “normas” sobre como é ser uma mãe perfeita, nos distanciamos da maternidade, para alcançar outra coisa. A maternagem é permeada de afeto, de toque, de olhar, e de vida. E a vida não é o tempo inteiro precisa, seguindo um script. Existem as diretrizes, mas existem os imprevistos. Nem todo dia o bebê vai dormir as horas que deveria, ou que dormia, há dias que os bebês vão querer mamar mais, outros menos, chorar mais, chorar menos, e para lidar com isso, é necessário que a mulher deixe de lado o manual, e siga o conhecimento que ela tem sobre e dentro dessa relação. Assim como o bebê está aprendendo a ser, a mãe também está, e é com o bebê que se aprende a ser mãe, e não com os livros. Os livros ajudam, tiram dúvidas, dizem os parâmetros, mas é o bebê quem diz o ritmo.

Existem alguns fatores que contribuem para o excesso de culpa nas mães, e não se pode falar de culpa materna sem falar de questões de gênero – de trabalho, de desigualdade, de falta de apoio e violência contra a mulher. A culpa da mãe é só um galho dessa árvore de culpabilização da mulher, que a coloca numa situação vulnerável, injusta, e a desencoraja de tomar suas próprias decisões, baseando-se naquilo que crê como o melhor para o seu filho, e para si própria.

Claro, algumas culpas vem de antes, muito antes, são construídas no decorrer da vida, e ao ter um filho essas culpas retornam como medo, e mais ainda, retornam com sentimentos de inadequação ou incapacidade. Quando a culpa é paralisante, se faz necessário buscar ajuda, para que a maternidade volte a ser prazerosa, um momento de compartilhamento e crescimento.

texto escrito para parceria com o site Daniele Assessoria Gestante