Eu tenho visto constantemente muitas pessoas falando que utilizam o cantinho da reflexão, em casa ou na escola, e me pergunto se os pais realmente acreditam que a criança quando vai para esse cantinho reflete sobre o que eles querem que as crianças reflitam.

Quando a criança fica de castigo, normalmente é porque ela fez algo que os pais não concordam. Quando ela é muito nova, entre 01 a 03 anos, colocar uma criança de castigo é no mínimo perder tempo, porque a criança não vai compreender porque está lá, você está reafirmando um comportamento agressivo, e ao invés de ajudar a criança a refletir, está afirmando que a única maneira de se alcançar o que se deseja é através de atitudes agressivas (sim, o castigo é uma agressão). 

A criança sente dificuldade de compreender o castigo, ou o cantinho da reflexão, por uma razão muito simples: se ela ainda não adquiriu a linguagem, e por isso muitos dos seus comportamentos são respostas emocionais aos ímpetos que sente, como que ela vai conseguir organizar as idéias num castigo, se ela não conseguiu organizar na ação? Fora que como a criança ainda está construindo sua relação com o tempo, por isso que quando ela conta uma história, muitas vezes conta os tempos atravessados, ou pergunta várias vezes quando é o dia da semana, quanto falta para chegar um dia que ela espera muito… Então, pedir para ela pensar sobre algo que ela fez no passado, e sobre o porquê disso é aumentar ainda mais a angústia dela em relação a ela mesma!

Os pais precisam ter em mente, SEMPRE, que as crianças não pensam como os adultos, para que a criança chegue a pensar assim ela precisa passar por uma série de marcos e de possibilidades. Eu sei que muitos de nós pensamos “ah! meus pais fizeram isso, e eu estou bem!”, será que quando falamos isso paramos para nos perguntar sobre os medos que temos, as resistências, as dificuldades? Claro que não dá pra dar conta e proteger as crianças de tudo, mas podemos possibilitar uma expansão maior das capacidades criativas de lidar com as adversidades, quando compreendemos e ao compreender fazemos diferente.

É muito mais eficaz que na hora em que o comportamento aconteça os pais contenham a criança, com afeto, e empatia, para que ela compreenda que está errado, mas que não é porque ela fez algo de errado que ela é que é errada, entendem a diferença? Quando apontamos o comportamento, às vezes, apontamos também a própria criança, e isso reflete diretamente na construção de sua autoimagem.

Discursos longos não alcançam a criança, não porque ela seja incapaz ou algo do tipo, mas porque ela ainda não tem vive no mesmo tempo que nós vivemos, e sua linguagem é mais corporal, como ela ainda está adquirindo vocabulário, construindo sentido das palavras que aprende, e iniciando seu raciocínio na linguagem falada, ela não alcança longos discursos, rapidamente ela dispersa. O ideal é que se  fale objetivamente: isso não pode, porque machuca; ou porque não dói… explicar o porquê e as conseqüências do COMPORTAMENTO, e não que a criança é isso ou aquilo ao fazer tal ação. E logo em seguida apresentar outras possibilidades.

O canto da reflexão não deveria ser um espaço para um “castigo”, mas uma possibilidade lúdica da criança aprender a pensar, para criança ter um tempo sozinha e observar, ouvir, refletir por si só. Um espaço de tranqüilidade, que ela pudesse curtir a si própria. Quando colocamos a criança de castigo num espaço que deveria servir para autoconhecimento, ensinamos à ela que pensar sobre si própria não é algo bom, mas conseqüência ruim de algo que ela fez. Ao invés de ensinar que refletir e conhecer a si mesmo é uma atividade interessante e que deveria ser realizada todos os dias, ensinamos que pensar sobre si próprio é ruim. E quantas vezes erramos, fazemos escolhas erradas, convivemos com pessoas que nem sempre nos identificamos, estamos no trabalho que não gostamos, casamos com alguém que não nos completa, temos filhos sem querer tê-los, não gostamos de coisas que continuamos a fazer, porque não nos ouvimos, e nem percebemos o que de fatos somos, gostamos, desejamos? Que tal criar um canto da reflexão como um lugar de relaxamento, e crescimento? E não um espaço de punição?

Fica a dica!

Post escrito para parceria com a loja Pequeno Infinito! Será postado na loja quarta-feira!