Desde sexta-feira eu tento ler alguns textos para conseguir escrever a respeito da relação entre pais e filhos pautadas na super proteção, até a vida adulta. Bom, como deu pra notar, eu não consegui escrever. Não por mal, ou por falta de vontade, ou por irresponsabilidade, mas por falta de tempo! Total falta de tempo! Hoje eu entendo porque muitas mulheres abandonam carreira ou filhos, por ser impossível, na lógica do tempo do trabalho, conciliar os dois. 

Até os 8 meses do Hugo, os horários eram tão certos, que ficava muito fácil me organizar para ler, estudar, escrever, postar nas redes sociais, e fazer qualquer outra coisa, pois ele dormia sempre entre 2h a 3h pela manhã e pela tarde, hoje isso mudou tanto, que eu ainda não consegui entrar no ritmo, para reorganizar meu trabalho, já que inventei de trabalhar com internet e psicologia (blog, instagram e facebook), além da clínica. Meu horário de home office está completamente ao contrário, na verdade, acho que nem existe mais um horário, porque meu marido trabalha o dia inteiro (o dia inteiro compreende-se por manha, tarde, noite e madrugada), então é impossível que ele esteja em casa pra ficar com Hugo, e nas nossas divisões de tarefas, ele ficou com a casa, porque se além de passar o dia inteiro brincando e cuidado do Hugo, eu ainda fosse cuidar da casa, era melhor desistir de tudo o que tenho feito, porque seria impossível.

O que eu aprendi, e continuo aprendendo com Hugo, todos os dias, e todos os meses, é a lidar com a imprevisibilidade da vida. Sabe quando você termina a terapia, e aprende que viver é ir em frente, sem garantia, ser mãe é tornar real este fato, porque você não tem garantia de nada a cada dia, você não sabe se amanhã ele vai continuar no mesmo horário, enquanto ele não estiver totalmente adaptado ao mundo, os horário mudam a medida em que ele cresce e novas necessidades surgem, e sempre que novas necessidades surgem, mudanças imensas ocorrem no desenvolvimento dele, no tempo dele, e na nossa vida.

Eu cresci numa cultura que haveria como prever o futuro, como planejar os dias, e traçar planos, não acreditava muito nisso, pois alguma coisa sempre me dizia que a vida não podia ser vivida dessa forma, como um plano perfeito, e durante muito tempo eu sofri por achar que certas coisas não davam certo porque eu não era focada, porque eu não era determinada, porque eu não tinha me esforçado, porque não tinha planejado corretamente (foi o que me fizeram crer), pois é… Passei anos em análise pra descobrir que esse sentimento era verdadeiro, e que não era incompetência minha, mas o mundo oferece muita informação, e muita coisa que pode avançar ou atrasar planos, sem que isso seja um atraso de vida, pois as experiências servem como aprendizado, e significa que você está vivo. A maternidade me fez deparar com esse sentimento, mais uma vez, mas resiginificado, com um gosto diferente, não com aquele gosto sofrido da incompetência, mas dessa vez o sentimento é de alívio, por compreender que a vida é imprevisível. E quanto mais a gente se esforça para caber dentro da caixa do tempo, menos feliz, menos realizado, menos orgulhosos nos sentimos em relação à nós mesmos.

Isso não é desculpa de quem não consegue fazer e culpa a maternidade por isso, quantas mulheres não ficam estressadas, tristes, com autoestima fragilizada, com sentimentos de incompetência, porque caem no conto de que é possível se adequar a esse tempo? E quanto mais se esforçam para caber nessa lógica, sempre sentem que estão deixando algo por fazer, principalmente em relação aos filhos? O tempo da criança é um tempo próprio, um tempo diferente, que nos ensina sobre a vida. O tempo da maternidade (e paternidade) é um tempo sem previsão, é a vida sem planejamento, é viver um dia de cada vez, sem promessas distantes para se cumprir. Eu cumpro, dentro dos meus limites. Nos dias em que eu posso, eu saio para conseguir fazer o que devo fazer, pois em casa, somente quando o bebê dorme, pois todo o resto do tempo é dele, por ele ser um bebê e depender de mim inclusive para andar, pois ainda não anda; por depender de mim para comer, beber água, mamar, e até brincar sem se machucar. Todo dia é um tapa na minha ansiedade de querer fazer algo, um tapa, para eu aprender que na vida tudo tem seu tempo, e meu tempo agora é o de maternar tranqüila, pois é essa tranqüilidade que eu quero que seja memória, que eu desejo que o acompanhe. E quero que ele cresça sabendo que a felicidade não é um status social, ou posição de trabalho, a felicidade está em outras coisas, relacionadas ou não com trabalho, mas a satisfação pessoal é além da material. Eu amo o que eu faço, já pensei em mudar de profissão quando achei que não iria conseguir conciliar com a vida de ser mãe que escolhi ter, a de estar presente e me fazer presente, mas não consigo me ver no futuro sendo outra coisa que não psicóloga, e quando penso que estou ainda caminhando na minha construção profissional, essa construção está entrelaçada com a vida de mãe, pois ambas são construções recentes.

O post vai sair, estou aqui cheia de textos interessantíssimos a respeito, com um certo atraso, pois houve meu problema de sexta no hospital, e o fim de semana inteiro tentando recuperar energias, pois o cansaço foi muito intenso, e ontem foi um dia puxado, desses que não consegui beber água direito, que acreditava que ao terminar de amamentar à noite, eu iria pular pro computador, ler e escrever, mas o que aconteceu foi que eu dormi, acredito que inclusive, antes de Hugo, que mamou ate dormír também… Bom, vou tentar terminar o texto, e postar hoje à tarde, com mil dias de atraso, porque mais tarde tem outro texto, sobre o tempo da infância e do desenvolvimento infantil, pra Pequeno Infinito, que sai toda quarta post meu por lá.