Começo o post com essa frase, para chamar atenção à falta de tempo que temos dado à infância, que temos permitido as crianças serem crianças, e quando não somos permitidos à isso, essa falta aparece no decorrer da nossa vida, nas nossas dificuldades, nas relações que estabelecemos, comportamentos, comunicação…
Muitas vezes pensamos a criança como um vir a ser – adulto, e esquecemos de olhar para a infância em sua totalidade, presentificando. E nessa idéia de que a criança é um adulto em caminho, tendemos a apressar esse caminhar, mas a idade adulta é a idade mais longa que vivemos, levando em consideração que a infância vai até mais ou menos 10 anos… O que são 10 anos diante de toda a vida que vivemos?! Nessa tendência, esquecemos de escutar as necessidades da infância, esquecemos de dar atenção àquilo que é pertinente, pois partimos do olhar do adulto, e não da criança. Devemos lembrar que para um bebê de seis meses, seis meses é uma vida toda dele, e isso deve ser considerado, que existe um saber, existem desejos e percepções que foram construídas no decorrer desses seis meses que são experimentadas, e vividas, no dia a dia desse bebê, e que será levadas a adiante, aprimoradas, agregando outras experiências e saberes. Tudo aquilo que vivemos fica inscrito, e guardado. Algumas coisas são aparentes, outras são esquecidas, e outras se transformam em comportamentos e maneiras de ser/agir… O adulto que somos é a criança que fomos. E por isso, a infância deve ser pensada, olhada e respeitada.
E o que existe na infância de mais importante, que a pressa de termos adultos cada vez mais cedo para o mercado de trabalho tem diminuído e até menos retirado da vida da criança? O brincar! Criança é praticamente sinônimo de brincadeira, se você observar um pouco, os bebês brincam com os pés, com as mãos, com as sombras, com o corpo dele, da mãe, do cuidador; quando crescem um pouco mais, inventam brincadeiras com tudo o que podem, até quando não tem brinquedos, quando estão sozinhos… O brincar é estruturante para a vida! E para a criança é fundamental. Permitir que a criança brinque, não aquela brincadeira pre-moldada, mas que ela possa inventar, e construir fantasias e historias, é fundamental para que ela consiga organizar os símbolos sócio-culturais que ela aprende no dia a dia, por isso que não precisamos força uma criança a repetir o alfabeto inteiro antes que ela esteja pronta para aprender a ler, pois as letras fazem parte do dia a dia da criança, e se ela for permitida a observar, perguntar, e brincar, ela vai associar os símbolos com os sons, e com aquilo que escuta. Brincando ela experimenta, constrói sentido, constrói lógica, e compreende o funcionamento das coisas, e quando ela brinca de viver papéis, aos poucos ela compreende como os papéis sociais – a partir do que ela aprende e vive em casa – funcionam… Através da brincadeira a criança tem condições de desenvolver e aprimorar habilidades que serão fundamentais para seu processo de aprendizagem, a brincadeira estimula a curiosidade, e ainda mais, a brincadeira proporciona autoconhecimento, pois a criança experimenta vários papéis e posições sociais.
Se faz necessário permitir que a criança desfrute o presente, e incentivar que a infância seja viva em sua totalidade, pois a infância é toda a vida da criança, e é na infância que iniciamos a construção da identidade, na infância são formados os elementos básicos da personalidade que se leva por toda a vida. Quando atropelamos a infância, encurtamos o tempo necessário para a construção da auto-imagem, do auto-conhecimento, da aprendizagem sócio-cultural, esse tempo é vivido na fase posterior, ou será que essa adolescência longa e tardia não tem um pouco dessa pressa de acabar com a infância?! O tempo da infância muito nos ensina sobre a vida, sobre viver o presente, a não cair nas armadilhas da sociedade do consumo que nos leva a viver sempre o futuro que nunca chega. Vamos nos permitir viver a infância, e viver a infância junto aos nossos filhos e crianças que convivemos. Criança precisa de tempo para ser e brincar, precisa de afeto, presença e carinho, pois é isso que ela levará para o resto da sua vida. Você já se questionou sobre a criança que você foi e o adulto que você se tornou?! O que te fez falta? Foi um brinquedo ou foi uma presença/colo/carinho que foi negado no momento em que se fez necessário? A infância não mudou, os adultos que insistem em diminuir a infância e sua liberdade… Estejamos atentos. Escutemos as crianças.

* Texto escrito para a loja Pequeno Infinito, em Fortaleza, nova parceira do blog e dos projetos! Mais sobre a loja no @amopequenoinfinito (Instagram)