Nesse período de eleições, fico observando as políticas voltadas para primeira infância, e constatei que só se fala em escola e creche de tempo integral!!! Fiquei me perguntando porquê tanta necessidade de creche para bebês, se existem milhares de estudos que buscam provar que para o bebê o ideal é estar entre os seus, durante, pelo menos, seu primeiro ano de vida. E entre os seus, pode ser mãe, pai, avô, avó, tio, tia, mas quem tenha afeto, disponibilidade e carinho para cuidar e ensinar.
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Acho que daqui a pouco é melhor criar milhares de internatos para as crianças, e a responsabilidade dos pais ser de visitar aos finais de semana, e assim estes pais viverem para trabalhar e produzir. Porque é esse o intuito de iniciar as crianças na vida escolar cada vez mais cedo: tempo para o trabalho! Pensar em creche de tempo integral para bebês de 0 a 3 anos, se pensa, mas políticas voltadas pra qualidade de vida, e do tempo da familia (leia-se casais homo, hetero, solteiros, quem adota, quem cria, OK?!), suporte para criança poder criar vínculos fortes e duradouros, apoio para maternidade e paternidade não tem né?!

Por que ninguém pergunta aos pais se eles de fato queriam colocar seus filhos tão cedo numa instituição? Eu vi uma pesquisa em que a maioria das mães responderam que se pudessem ficar mais tempo com seus filhos, esta seria a sua opção. E os pais? Conheço muitos que reivindicam esse tempo de presença com seus filhos, mas infelizmente não conseguem, pelo cansaço que a vida do trabalho impõe.

Pensar na infância é pensar nas relações construídas no entorno de período, é pensar no exercício da maternidade e da paternidade, é pensar na rede de cuidados, na educação, na cultura e no lazer. Pensar também nos caminhos que queremos seguir construindo nosso futuro.

A ideia, então, seria criar subjetividades em série, crianças cada vez mais distantes dos seus cuidadores, todas iguais, como ferramentas em massa?! Massificar a identidade, a subjetividade?! Só se fala em criar instituições para “depositar” as crianças lá dentro, mas gente, não. A vida ta do lado de fora, precisamos de políticas que integrem a vida à cidade, que o trabalhador tenha TEMPO para viver a cidade em que vive, tenha tempo para viver a própria vida! Eu não quero só creche não, quero licença maternidade que permita a mãe ter o período de amamentação exclusivo (os seis meses recomendados) e o desmame natural, e que respeite o bebê nesse processo de adaptação no mundo, eu desejo uma licença paternidade que mude a cultura machista de pais distantes, e que assim o pai seja incluído nos cuidados do bebê, pelo menos no puerpério, período mais pesado e complexo da maternidade, período no qual a mulher precisa de mais atenção e ajuda! Eu desejaria uma redução da carga horaria de 44h semanais, para 36h em todas as categorias! Para diversificar o horário comercial, de serviços, e tempo para investir na vida, na cultura, no lazer, na qualidade de vida, na saúde mental.

Tenho visto, lido, e acompanhado algumas iniciativas muito interessantes, que vão na contramão desse pensamento de instituições como cuidadores de bebês, a criação de redes de cuidado coletivos, redes de apoio, casa-creche, casa-escola, formas de cuidar e educar que respeitam o tempo e a singularidade de cada criança. Acho que é o inicio de mudança maior, mais significativa no nosso olhar para infância. Vim aqui escrever isso, pois estou estudando sobre depressão pós parto, e todos os estudos chegam num mesmo ponto, mães que tiveram apego enfraquecido, vínculos frágeis, sofreram abandono ou outras situações de violência na infância tendem a desenvolver depressão pós parto, pois ter um filho é retornar às nossas questões primervas. E fiquei pensando, não só nas mães, mas nos adultos em geral, nos adultos que somos, pelas crianças que fomos. E que adultos queremos, quando impomos às crianças tanta separação, tanta ausência, tanta falta…
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(Post escrito após as eleições, publicado hoje no Café Mãe, do Vila Mamífera)