Ontem levamos Hugo à praia pela primeira vez, eu já tinha ido atrás da piscininha de plástico dele, mas não encontrei, não em preços acessíveis (porque R$116,00 numa piscina de plástico para praia é no mínimo absurdo). E também não comprei brinquedos de praia, porque ele coloca tudo na boca e eu acho que não é o momento de ter esses brinquedos se ele nem vai usar ainda… Talvez com 9 meses, quando ele começar a brincar de botar e tirar as coisas do lugar, faça sentido. E tem sido nessa lógica a minha vida de consumo. Desde que Hugo nasceu, na verdade, desde que eu engravidei, muita coisa perdeu o sentido e abriu espaço pro essencial. Essencial é o conceito chave pra minha vida pós Hugo.
Durante um intervalo da minha vida (saída da adolescência e entrada na vida adulta) eu tive um problema com compras, e se eu visse a palavra liquidação, então… Depois eu me arrependia, congelava cartões (depois de assistir o Delírios de Consumo… não me senti tão doida hahahahaha), quebrava cartões, escondia dinheiro pra esquecer que tinha, tudo pra não comprar, era um vício. Alguns são viciados em comida, outros em drogas, eu era viciada em compras. Então isso passou. Eu já achava absurdo nossa cultura de compras, a imposição de só se ter shopping para passear na cidade, e quanto mais eu estudava consumo e identidade, mais fortalecida estava com a idéia de que o consumo substitui nossas reais necessidades de contato, afeto, companhia, e o lazer que nos proporciona sentimentos reais de pertencimento, criatividade, e autoconhecimento.
Tenho tudo isso muito claro na minha cabeça, mas apesar disso, a sociedade de consumo consegue nos pressionar e deixar culpa onde não deveria caber. Quando você compra, você se sente culpado; quando você não compra, você também se sente culpado. Já perceberam isso?!
Eu deixei de comprar de fato ano passado, antes disso, quando eu achava que precisava de algo, comprava. Nada exagerado, mas porque a gente é acostumado a acreditar que precisa. E eu tenho percebido que minha necessidade diminuiu, e que eu tenho um guarda roupa entupido de coisa que eu to doida pra me livrar (to pensando em fazer um brechó por aqui e vender tudo por até R$25, e guardo pro aniversário do Hugo, ou pra nossa viagem, ou pra comprar o que faltar pra montar o quarto dele). E essa percepção chegou até Hugo e minha relação com ele. Por estar sempre em casa, e estar sempre presente, e o tempo inteiro brincando com ele, colocando as cachorras no meio da brincadeira, e, agora, perdendo meu medo de passear sozinha com ele, bom, os brinquedos são pouco olhados por aqui, ele prefere sempre o contato, o abraço, o colo, os beijos, as cócegas, os cheiros, e caminhar. Algumas pessoas comentam “ah! Ele gosta de um colo né?!”, eu particularmente fico bem orgulhosa, porque pra mim significa que meu filho gosta de contato e afeto, talvez por isso ele sorria sempre, até para desconhecidos, vai pro colo de todo mundo, e bate o maior papo no seu “dadadada”.
Bom, eu me orgulho muito dessa mudança na minha vida, que andava em passos lentos, e a maternidade tornou concreta. Mas ao mesmo tempo, apesar de saber que é uma questão cultural, que é uma imposição, que o sistema precisa disso para caminhar, que vivemos num sistema capitalistas liberal que exige que sejamos solitários para que se continue nestes moldes, quando eu olho pra minha casa e vejo que não temos muitos brinquedos, ou outras coisas tecnológicas que os blogs de mães dizem que são essenciais, eu me sinto culpada e me pergunto se eu não sou uma péssima mãe por não dar isso à ele. Claro que isso passa logo em seguida. Eu respiro fundo, e lembro dos motivos que me levam à essa culpa. O que me importa mesmo é que Hugo tenha os bens materiais necessários, e o mais importante, que tenha presença, tempo, brincadeiras, e possibilidades infinitas.
Ontem na praia, fiquei com ele no colo, levei ele ao mar, ele gostou de olhar, mas a água gelada e o susto porque ela vem de uma vez e vai de uma vez, fez com que ele resmungasse, e desse aquele choro de reclamação. Mais à frente, uma bebezinha também fazia as mesmas coisas que ele. E enquanto estávamos contemplando aquele mar imenso, azul e lindo, também observei as outras crianças e famílias, e por um momento me senti culpada por não ter levado aqueles aparatos de praia, balde, pá, piscina, e afins! Sim, a piscina, aquela que eu vi de R$116, me pareceu extremamente necessária naquele momento. Me senti culpada. Como eu não tinha comprado tudo isso pro meu filho se divertir na praia?! E como nosso inconsciente é rápido, em segundos fui levada à 1995/1996, aos meus oito anos. Lembrei do Rafick, meu amigo e companheiro, um cocker spaniel preto, lindo; e fui, pelos caminhos da minha memória, para aquela casinha, no meio de um morro, sem energia, sem água encanada, que a gente corria pra praia sem brinquedo nenhum, porque esquecíamos que eles existiam, só corríamos, com o Rafick, com nossos primos, às vezes só a gente (eu tenho irmã mais nova), corríamos sempre em direção ao mar, andávamos sobre as pedras, procurávamos conchas e pedrinhas coloridas, pra brincar ( aquela brincadeira que vc joga pra cima, pega o que ta no chão, sem deixar o que jogou cair), e ficávamos horas a fio deitada nos maceiós que se formavam quando a maré baixava. De tarde todo mundo dormia numa rede na varanda, e de noite, papai acendia o lampião e as lamparinas, e líamos poesias. Isso quando não ficávamos olhando as estrelas, ou brincando de acender velas, e fazer minhocas com a cêra derretida. E quando tínhamos que puxar água na bomba, tomar banho dentro da tina, ou coisas do tipo?! Ah… Eu acredito que o melhor de mim foi criado nesses momentos, nesses momentos em que nada além dos meus pais, da minha irmã, e daquele mar, importava. Eram os afetos, os vínculos, as companhias e as conversas, as historias, as músicas, os livros. Acho que é isso que eu quero que ele aprenda, que nada no mundo vai ficar no lugar dos afetos, quero que ele compreenda que presentes, brinquedos, e outras coisas são legais, e ele vai ter, mas que só o necessário, porque mais que o necessário só crava um buraco maior da nossa falta. E eu acredito que a nossa incompletude, essa que nos constitui e que nunca findará, só se acalma com amor.
Sei que vou me sentir culpada outras vezes pelo mesmo motivo, sei que vou sentir falta de comprar, sei que vou ser enganada e que algumas coisas vão parecer necessárias sem o ser de fato. E sei também que pode ser que nada disso aconteça de novo, e que eu me sinta tão bem com tudo o que eu tenho, com o que eu tenho feito, e tal e tal, que talvez eu não sinta falta de mais nada. Eu tenho uma lista de coisas essenciais, e de coisas que preciso me livrar, das essenciais são viagens que quero fazer em família, e das que um dia vou me livrar é o carro e a televisão do quarto (fora as roupas que to separando pra fazer esse brechó)…