Hoje fui convidada a falar um pouco sobre Depressão Pós Parto, em três perguntas: sintomas, tratamento e possíveis conseqüências. Na hora um monte de coisa vem à cabeça, e você tem que encontrar a melhor maneira de resumir tudo o que você pensa, e acho que no final das contas ficou faltando algumas coisas a serem ditas, mas a gente sabe também que sempre vai faltar coisas a serem ditas. Falar sobre esse tema é preciso, sempre, pois é uma questão social, e eu percebo uma falta de olhar para a maternidade (depois de ser mãe isso me ficou ainda mais forte)…

Bom, quando a mulher tem um filho milhões de mudanças acontecem na vida dela, principalmente no que diz respeito à identidade, certo? Mas o que é ter um filho? Quando a menina passa pelo o Édipo, ele se resolve com o desejo de ter um filho – do pai – mas esse desejo é impossível de se realizado, ele vai ficar guardado no inconsciente, e quando a mulher engravida, ele retorna, modificado, o desejo de ter um filho do pai é de ter um filho. (A menina pode resolver seu Édipo de outra forma que não desejando esse filho, talvez. Estou aqui falando da maternidade, de quem resolveu ser mãe, mesmo que conscientemente não tenha desejado). Quando um adulto se depara com uma criança, essa criança se torna um reflexo da infância desse adulto – seja a infância que ele teve ou a que ele fantasia. Então, quando a mulher se torna mãe, ela se depara com a sua própria infância também. Logo, muitas questões retornam. Se esta mulher-mãe teve uma infância carregada de acontecimentos positivos, ou teve possibilidade de significar os acontecimentos ruins de maneira positiva, o que vai retornar com o nascimento do bebê serão coisas boas, e a alegria desse nascimento será o motor e a característica dessa maternagem, mas se houveram situações que por alguma razão não foram recalcadas, quando o bebê nasce, retornam. O retorno dessas memórias/fantasias inconscientes é que vão levar ao aparecimento dos sintomas da maternidade, a podem levar à depressão, pois mais uma vez ela precisará dar conta daquilo que já não conseguiu dar anteriormente. O bebê é uma convocação a dar conta de uma realidade, e se ela não tiver ferramentas em si mesma para dar conta dessa realidade que se apresenta, se faltar à esta mulher-mãe conteúdos que possam revestir a situação e ela possa atuar e vivê-la, alguma coisa acontece. E no caso, pode ser a depressão.

A maternidade tem algumas “divisões” – para facilitar a compreensão as pessoas costumam encaixotar as coisas, separar e nomear, ok? – então existe o momento que chamam de Baby Blues, que é uma tristeza que acomete a mulher logo no pós-parto, essa tristeza passa, normalmente ela dura o tempo  necessário para que a mulher ressignifique mais uma vez sua situação, a passagem de grávida para o não grávida, é um momento de extrema sensibilidade, e cansaço. Pense que a mulher está se adaptando a uma nova situação, mais uma vez se adaptando ao seu próprio corpo, e ao seu novo eu, e isso é cansativo de todas as formas. Dizem, na literatura, que dura aproximadamente o primeiro mês, que compreende o tempo do resguardo – por isso todas as teorias e histórias das avós e das mães sobre resguardo quebrado podem e devem ser levadas à sério. E nesse momento a mulher-mãe precisa de todo apoio e suporte que puder ser dado, para que haja leveza nesse momento de transição. A maternidade não deve ser algo individual e solitário, pelo menos não deveria ser, basta olhar como ela acontece em outros povos, com cultura de comunidade, e como acontecia antigamente, a maternidade era algo coletivo, mas isso fica para outro post…

Se essa tristeza que deveria ser passageira, continua, ou aparece em outro momento – dentro do primeiro ano de vida, se caracteriza como depressão pós parto quando é uma tristeza prolongada, dolorosa, com pensamentos recorrentes de culpa e incapacidade, que dificultam o dia a dia, os cuidados maternos e a relação da mãe com o bebê, MAS a depressão materna pode acontecer noutros períodos da vida da mulher, e pode sim, estar relacionada a maternidade. Apesar de a maternidade ser um período de ganhos afetivos, ela carrega muita perda, e muitos momentos de ressignificação. Primeiro o deixar de estar grávida, e a sensação de ser um com o filho, de completude (como algumas mães colocam), tanto que algumas revelam saudade desse momento; depois a amamentação e o desmame; existem também um fator agravante – que já é colocado na literatura sobre o tema, que é a separação precoce (sim, ela não faz mal somente ao bebê, mas à mãe que também está num processo de estabelecimento de laços, reconhecimento de si, e etc.); depois tem a adolescência, e por aí vai… Cada momento desse, numa mulher com sua história de vida marcada por momentos de perdas, ou dificuldades de lidar com isso, podem ser complicados. A maternidade envolve uma série de lutos, e todo luto precisa de apoio, carinho, compreensão, e cuidado. Algumas mães sofrem com a dependência do bebê, sentem-se sugadas, exauridas, pois não conseguem dar resposta à demanda do bebê por alguma razão, (lembrem-se que a maternidade é cansativa, mas quando esse cansaço atrapalha ou impede que os cuidados e a relação com o bebê exista, deve-se procurar ajuda); outras mães sofrem quando o filho caminha para autonomia – que é o natural ok? E quando acontece o segundo caso, algumas crianças abrem mão da sua independência por medo de perder o amor materno. No primeiro caso a criança já perde o amor materno, o que é complicado para o desenvolvimento emocional dela, pois ela perde um amor repentinamente, sem explicação, e isso vai ficar pra essa criança, e vai permear suas relações no decorrer da vida, sim. Porque o bebê só se reconhece enquanto um outro investe amor e simboliza sua existência, quando – do nada – esse investimento é retirado, esse bebê fica desamparado, e isso compromete seu desenvolvimento.

Por isso é muito sério se pensar a maternidade, pois ela envolve, principalmente, duas pessoas: uma que já é, e outra que vem a ser por conta desse momento! Por isso é importante repensar a licença paternidade, pois se faz necessário a presença do pai (leia-se quem faz o papel paterno, por favor!) para apoiar e cuidar da mãe, e possibilitar que ela tenha condições de cuidar do bebê.

Dados quantitativos: baby blues acomete cerca de 50% das mulheres, e a depressão pós parto, no Brasil, chega a 36%. É um número alto! E isso deveria fazer com que mais olhos se voltassem para essa questão, até porque é impossível dissociar primeira infância de maternidade ou relações familiares.

Outro aspecto da maternidade, principalmente do período puerperal, é a psicose materna, que a mãe passa a ter fantasias recorrentes de que sua incapacidade de cuidar do seu filho é tanta que chegaria a machucá-lo, ou machucar a si mesma. São pensamentos frequentes de culpa e incapacidade, que geram fantasias, dificuldade de perceber a realidade, confusão mental, e muitas vezes, a mulher tanto acredita na sua capacidade de ferir, que acaba de fato realizando. Por outro lado, existem mulheres que simplesmente negam o nascimento do bebê, estranhando a situação, e negam o filho, por não reconhecer o nascimento do mesmo. Como se elas não tivessem tido. Nesses casos se faz necessário acompanhamento de psiquiatra, também, e urgente, pois o infanticídio acontece muito nesse estado mental. Um dado quantitativo sobre é que isso chega a 0,2% da população feminina, e normalmente em mulheres que já possuem transtorno de humor, ou na família tem algum caso de transtorno de humor.

Pulando as nomeclaturas da sintomatologia, acredito que todo sofrimento materno deve ser cuidado, e é sério. Na verdade, todo sofrimento deveria ser levado à sério. E caso a maternidade esteja sendo pesada demais, como um fardo; caso você perceba seu filho como um estorvo, um atraso; caso você não consiga compreender o tão famoso mito do amor materno, pois não consegue viver esse amor que falam tanto a respeito, procure um psicólogo, procure ajuda. Um dos motivos que muitas mulheres não buscam ajuda quando suas questões emocionais estão relacionadas à maternidade é por conta desse mito, e gente, o amor é construído. A construção desse amor materno se dá pela história de vida, pela maneira como a mãe viveu suas experiências de afeto e desafeto! Só podemos dar aquilo que possuímos, e se não tivemos oportunidade de tê-los, que possamos construir e encontrar dentro de si o que falta de afeto, para ser possível dar.