Ontem minha licença maternidade chegou ao fim, e por questões da ordem da necessidade, retornei ao trabalho.
Bom, não foi fácil, foi o primeiro dia, e nada que você escuta nesse momento agrada ou acalma, por um simples motivo: eu não acho normal, nem acho correto, se acostumar ou adaptar ao sofrimento. E por que estou falando isso? Porque foi o que me disseram, várias vezes, “no começo é difícil, depois acostuma…”, mas por quê raios eu deveria me acostumar com algo que não faz bem? Aposto que ninguém chega para mulher que o marido bate e diz isso pra ela, então porque dizemos isso às mães todos os dias? Dizemos a elas que elas vão se acostumar com o sofrimento do filho, e o delas? Não, não me conformo.
Outra coisa que me fez pensar mais ainda sobre isso é a pressão, indireta, discreta, mas que alfineta (por essas pressões serem exercidas dessa forma, com espetadas de agulha, nem sempre a gente percebe, porque parece picada de mosquito, vc se incomoda, mas não pára pra ver o porquê…) para que você retorne e já esteja readaptada e feliz.
Eu acordei 6h, enrolei na cama com Hugo até 6:30, depois disso, só peguei no meu filho 12:30 (agora detalhe: tenho uma hora de almoço e demorei 25min para chegar em casa, faça os cálculos…) corri pra amamentar (assim que ele me viu sorriu e desabou num choro sofrido que partiu meu coração), dei um banho nele, e engoli o almoço. Cheguei em casa de novo 18h, dei de mamar, outro banho e ele dormiu. Enquanto eu dava a mamada depois do banho, para ele dormir, a Telma veio conversar comigo, preocupada com a minha tristeza e angústia, e me perguntou do que eu tinha medo, se eu tinha medo que ele não me amasse mais. Eu olhei pra ela, e vi o quanto ela estava preocupada comigo, com a gente. Lembrei que ela tem dois filhos, um ela pôde ficar com até mais de um ano, e o mais novo só ficou seis meses…
E comecei: “Telma, tu tem dois filhos né? E com a mais velha tu ficou mais tempo que o mais novo, não foi? Então, tu não percebe nenhuma diferença entre os dois, em relação à comportamento, a necessidade de atenção, a coragem de se lançar nas coisas, o medo, e tal?”
Aí, ela parou um pouco, e disse que sim, que o mais novo quando era bebê chorava muito, chorava tanto que já teve até vizinho indo lá saber o que acontecia com o bebê, e que falou outras características do mais novo, comparando com a mais velha, e relacionando com as etapas de desenvolvimento de cada um…
E eu: “pois é, Telma, as pessoas normalmente não querem fazer essa relação, porque isso às vezes gera culpa, porque a gente não sabe o que fazer. Não vou dizer que é uma regra geral, mas olha só, o bebê nasce e até mais ou menos os seis meses ele acha que ele e a mãe são uma coisa só, e aí na hora que ele percebe que é uma pessoa diferente da mãe, e ainda está assimilando isso, a gente precisa voltar ao trabalho numa carga horária absurda, que priva o bebê de presença. Ele nem teve tempo de entender direito, e já é submetido à essa violência. Se fosse um turno de trabalho, não seria ruim, pois ele dorme 3h e um turno é de 4h, mais 1h de deslocamento… Mas nesse ritmo absurdo, a criança fica desamparada, mesmo que ela esteja com pessoas que ela convive e gosta, é diferente. E aí em cada etapa do desenvolvimento dela, ela tá caminhando pra autonomia e independência, mas ela só alcança autonomia se ela tiver segurança, como ela vai se sentir segura se na hora que ela ainda precisava da mãe por perto, para se sentir amparada, segura, apoiada, a mãe não estava? Porque é agora que ela precisa, depois ela vai começar a caminhar com as próprias pernas e só vai pedir autorização pra isso. É do ser humano seguir em direção a autonomia, mas pra tanto ele precisa de um ambiente propício. Como eu te falei, não vou dizer que é a regra. Mas até o vínculo, que ainda está em construção, fica fragilizado. Claro que eu sei que Hugo vai me amar, mas como será que essa ausência precoce vai fazer com que ele construa sua relação comigo? E outra, é a partir dessas memórias, e dessas sensações, que ele vai construir a relação dele com o mundo. Eu precisando deixá-lo dessa forma abrupta, e num momento de transformações diárias da vida dele, isso não pode ser bom. Se fosse bom, normal, bacana, nenhuma mãe sofria e nenhum bebê, mas se a maioria das mães sofrem e os bebês também, é porque não pode ser bom. Quando a gente tira um filhote antes do tempo dele, de perto da mãe, a mãe acaba se apegando a algum brinquedo, e o filhote chora feito um condenado a noite inteira, né nao? Mas quando tá na hora do filhote seguir em frente, ele e a mãe desmamam, ele começa a comer ração sozinho, e a mãe vira só um ponto de referência. Né assim? Do mesmo jeito com a gente, só que com a gente arranca o filhote logo, nós dizem que é normal, e que a gente vai se acostumar com a dor, e pra preencher essa dor, nós entopem numa carga horária monstruosa, pra que a gente não tenha nem tempo de pensar sobre isso, de questionar essa situação. E o trabalho pra ganhar dinheiro pra poder comprar, ocupa lugar principal em tudo isso, pra gente esquecer. Posso até estar errada, mas não me conformo que devo me acostumar com algo que me faz sofrer, e se faz sofrer é porque tá errado…”
Ficamos, eu e ela, pensando sobre isso. E eu refiz os cálculos de tempo que vou ter com meu bebê daqui pra frente, 30min de manhã, provavelmente nenhum à tarde, e mais ou menos 1h ou 1:30h à noite. E aí, vem alguém e diz que qualidade do tempo é melhor que a quantidade? Sério, que a gente se deixa enganar por esse discurso? 2h de contato é tempo? Eu to aqui escrevendo e ele tá dormindo… Eu me pergunto se isso conta como presença, porque só se for assim.
Em nenhum momento eu quero deixar de trabalhar, mas eu me questiono sobre a carga horária desumana, que acaba com as nossas relações. Será que é tão necessária assim? Por que existem países que tem um a carga horária reduzia? E uma licença maternidade e paternidade maior? A família é uma instituição falida, as relações são superficiais e efêmeras porque é assim mesmo, ou porque nos impõem um modelo em que não resta tempo para viver de maneira mais profunda o que nos dá prazer, então melhor substituir essas relações pelas únicas opções que nos fornecem: trabalho e consumo… Eu escolhi ser mãe, escolhi ter uma família, escolhi abrir mão do meu individualismo e viver em comunidade (sim, porque vivo numa família), dentro dessa sociedade de individualidades, e sinto que essas escolhas não tem amparo, suporte, apoio. Eu não quero criar meu filho para uma sociedade de individualidades, mas para viver em comunidade, para estabelecer laços, criar relações, conhecer as pessoas, e buscar conhecer as coisas, para construir para um bem comum, e não para consumo próprio… Aí Marx, tu tava muito certo, o trabalho aliena, e muito.

Esse é o meu grito feminista, pelo direito de escolher ser mãe, de criar crianças de verdade, de criar pessoas. De criar, minha cria. De não ter vergonha de optar por isso, e não ser menos mulher, ser menos independente ou livre por isso, mas justamente por isso viver minha liberdade, por viver o que eu escolhi. E eu queria ser amparada nessa escolha, apoiada. E pelo direito de outras mulheres escolherem não ser mãe, sem que isso signifique não viver sua feminilidade plena! Mas que as escolhas sejam possíveis, E APOIADAS! É necessário pensar esse sistema trabalhista da forma como ele é estruturado, pois vai de encontro a todas as recomendações de saúde, educação e afins pelo desenvolvimento saudável das nossas crianças! Que mãe e pai não gostaria de ter mais tempo com seus filhos, carga horaria reduzida ou flexível que ajudasse na criação e educação dos filhos, que não precisasse ter medo de ausentar-se do trabalho ou chegar atrasado para cuidar e ouvir um apelo do seu filho, uma questão de saúde, uma questão emocional. Quantos não gostariam de proporcionar mais tempo para compartilhar as tarefas escolares, de ensinar sobre a vida, de ter momentos de lazer e estreitar os laços, e quantos não percebem como esse tempo roubado prejudica todo o ideal de ser pai e de ser mãe?! É necessário pensar e questionar sim o espaço e respeito que (não) damos à infância e às mães!(*)

Agora vou dormir, pois o cansaço consome cada grama do meu corpo, e vou sonhar com licenças mais longas, e sociedades menos consumistas…

(*) quando falo mãe, quero dizer quem faz esse papel, desde o nascimento do bebê, podendo ser o pai, um cuidador, uma avó ou avô… Usar a palavra mãe facilita a escrita. Par que não entendam mal.