Existe uma frase que leio quase todos os dias no mundo virtual: a mãe é a única que sabe tudo sobre o seu bebê. E diante dessa frase tão sincera, que busca elevar a auto-estima das mães que são bombardeadas por informações o tempo inteiro, e em sua maioria informações contraditórias, existe um problema bem sério por detrás dela. Muitas vezes essa frase é só o que muita mãe precisa para justificar muita coisa, que no senso comum, e para quem trabalha com criança pode ser perigoso para o desenvolvimento emocional, cognitivo e físico da criança.
Num exemplo bem simples, todo mundo sabe que refrigerante faz mal, certo? Os adultos ESCOLHEM tomar refrigerante, mesmo sabendo que faz mal, e escolhem arcar com as consequências de saúde, caso ocorra. Uma criança precisa que um adulto diga o que é certo e errado, que um adulto brigue quando ela fizer o errado, e quando é com um bebê se torna praticamente uma obrigação do adulto fazer o certo, porque o bebê não tem escolha, então, independente de você, adulto, escolher tomar refrigerante, o bebê não pode, dar refrigerante para um bebê faz mal, logo uma mãe dar refrigerante para um bebê está errado, mas quantas mães não vemos por ai dando coca cola em mamadeira para seus bebês?
Quando temos um filho devemos esquecer durante um período nossas escolhas pessoais, na verdade, essa história de escolha pessoal é uma idéia moderna, porque antes as escolhas eram baseadas a partir do bem da comunidade em que se vivia. Ser mãe e pai é retornar à esse momento anterior à individualidade, por uma razão muito simples, os bebês ainda estão construindo o que chamamos de individualidade, os bebês ainda estão se constituindo como sujeitos, e eles pegam emprestado de nós as palavras, os símbolos, os gestos, e a vida, sim, a vida, então num determinado momento nossa vida é voltada para o bem de todos, e principalmente para o bem daquele bebê. Tivemos muito tempo para construir e ainda teremos tempo para dar continuidade à nossa própria individualidade, mas ao nos tornarmos responsáveis por outra vida, deixamos as coisas um pouco em stand by
Um bebê, como disse, toma emprestado tudo, até nosso corpo, enquanto ele constrói suas próprias impressões, emoções, percepções, adquire palavras, e coloca sentido em tudo o que vê; ele também demora um pouco para compreender que seu corpo não é uma extensão do corpo materno, uma das etapas desse processo de separação é quando ele começa a se alimentar de outras coisas que não somente o corpo da mãe – o leite. É nesse momento, em que o bebê está se constituindo, que a sabedoria materna é imprescindível, porque ele não sabe o que sente, o que vê, o que quer, e é a mãe (que saudavelmente vai supor e acreditar que sabe de tudo) vai dizer ao seu bebê tudo isso que ele ainda não sabe, vai traduzir seu choro, incomodo e sorrisos, e nessas traduções o bebê vai começar a desvendar o mundo, até se apropriar das palavras e dar seu próprio sentido.
Tipo, quando estamos aprendendo a escrever, fazemos caligrafia cobrindo letras pontilhadas; e primeiro alguém segura nossa mão, depois aprendemos a cobrir sozinhos, depois criamos nossa própria letra e começamos a escrever nossas próprias histórias e respostas. É mais ou menos isso, as mães emprestam aos seus bebês sua letra, para que no momento certo, seu filho passe a escrever com a própria letra.
Mas por quê estou falando sobre isso? Bom, como acompanho muitos blogs e IG’s e leio os comentários no geral, fico um pouco preocupada com o mundo de informações quebradas, onde todo mundo quer ser especialista, sem estudar. E vejo muitas mães afirmando com convicção que se o filho é dela, ela educa (leia-se ela faz) como quiser, e não é bem por ai, primeiro que um filho não é um objeto, e segundo o filho não é nosso, na verdade ele é uma responsabilidade que temos, para educar e dar continuidade à humanidade, por isso é importante refletir sobre o desejo de ser mãe.
Mas poxa, passei nove meses gerando, e a vida inteira amando, para que no final ele não seja meu? É, é mais ou menos isso. É filho, é seu filho, mas não é seu, porque ele é outra pessoa, com desejos e sonhos próprios, e a coragem de realizar e viver vai existir se ele não se sentir culpado ou amarrado no ou pelo desejo de outra pessoa que o fez de objeto. Outra coisa, existe o caminho apontado por diversas pesquisas científicas, métodos, e afins, sobre educação, e mais ainda, temos um conjunto de leis e regras básicas, que regem a sociedade desde sempre, para que os homens não se matem uns aos outros o tempo inteiro em nome do próprio desejo. Você até pode educar seu filho como você quiser, já que o filho “é seu”, portanto você deve estar consciente de que por vivermos em sociedade serão cobradas atitudes e posturas. Por vivemos numa sociedade de indivíduos, cada um tem um espaço, e isto deve ser respeitado, só que nunca esquecer que as escolhas trazem conseqüências, boas ou não (Eu, particularmente, acho estranho uma sociedade de indivíduos, porque se é cada um por si, como a sociedade se sustenta?)… Os especialistas vão apontar os caminhos, “não beber refrigerante”, “não passar muito tempo na frente da televisão”, “tempo limitado no computador ou redes sociais”, “comer frutas e verduras”, “não estimular demais os bebês”, “a importância da rotina, e da flexibilidade”, “a importância da autonomia e respeitar o tempo de cada um”, e infinitas recomendações, que você pode escolher seguir, escolher ponderar, escolher ignorar. Mas é uma escolha que implica no desenvolvimento de outra pessoa, de uma pessoa que ainda está aprendendo a ser o que quer e pode ser, desenvolvendo sua percepção do mundo e dos outros, que seu corpo ainda precisa de cuidados… Não podemos ser mães perfeitas, existe toda uma rede de apoio que dá suporte às nossas escolhas: o pai, a família, a escola, e as amigas e amigos, se você decidiu seguir as recomendações, que na maior loucura do sistema não se tem suporte pra segui-las, sem que você quebre o status quo (e eu imagino que deve ser isso que se fala da contradição do próprio sistema e o que leva à falência do mesmo), não esqueça da sua rede de apoio.

Quando eu me vejo frente à uma decisão, a primeira coisa que me pergunto é que mundo E que vida eu quero para o meu filho, e em seguida a re-faço em outra ordem: que filho eu quero deixar para o mundo e para vida…
Ter filhos é ter responsabilidade com o que vem em seguida, com o mundo, com a existência. É viver o presente com muito amor, muita dedicação, pois só existe um futuro se o presente for vivido e cuidado. Nunca saberemos quem nossos filhos serão, antes que eles o sejam, por isso é importante ver a criança no agora, e fazer desse agora um momento de felicidade, de pleno desenvolvimento, de aprendizado, de amor.

Com todo carinho,

Raisa.