(vou usar o termo mãe pra simplificar, mas pode ser também uma questão para o pai, ou para o cuidador do bebê, que nem sempre é a mãe ou pai, ok?!)

Essa decisão de delegar a terceiros o cuidado com os nossos bebês não é fácil, pois somos bombardeadas de jargões como “mãe é quem cria”, “ninguém cuida como a mãe”, e tais jargões nos enchem de culpa, pois incutem em nós mulheres um sentimento de como se estivéssemos abandonando nossos filhos.

Bom, a creche só se torna vilã quando enxergamos com esses olhos, sabe? Porque o que acontece que a criança vai sentir o medo e a insegurança da mãe/pai/cuidador em relação à creche, e vai traduzir esse medo que ela percebe na relação que ela vai construir com a creche. A criança é um espelho dos pais, seja pra traduzir o não dito, seja para que os pais enxerguem (de maneira distorcida) a imago da sua infância. Acredito que outra questão que fere, e aumenta a sensação de culpa da mãe ao resolver colocar seu bebê numa creche é uma questão narcisíca, pois quando temos um filho, firmamos com nós mesmos um contrato de que não iremos permitir que nossos filhos sofram, como supostamente nós sofremos. Claro que esse contrato nem sempre é algo tão claro assim para nós mesmos, mas fica aparente quando nos recusamos a dizer não… mas isso é assunto pra outro post.

Então, os bebês tem uma capacidade crescente, e sentem bastante prazer, nas interações sociais, então não seria de todo ruim para seu desenvolvimento ir para uma creche, certo? (WEBER et all, p. 48, 2006). O que vai facilitar a introdução da criança na creche vai ser a relação da mãe com essa situação, e com a creche. Então, para que seja um processo interessante e saudável, tem que ser para os dois, mãe e bebê.

A instituição creche surgiu no séc, XIX como suporte para as mães que trabalhavam extradomiciliar, algumas indústrias fizeram creches para os bebês das suas operárias, pois acreditavam que se os bebês estivessem bem cuidados, as mães ficariam tranqüilas e seriam mais produtivas (e acho que se hoje isso existisse, muitas mães iriam ao trabalho com coração mais leve). As creches serviam para dar suporte ao trinômio mãe-trabalho-criança. Quando se passa a enxergar a criança como um sujeito de educação, e um cidadão, não mais como um porvir, as creches perdem esse caráter assistencialista. A criança tanto passou a ser vista como cidadão, que se passou a ter uma preocupação maior com esta fase, que na década de 1990, a Comunidade Européia lançou um estudo “Qualidade para os serviços da criança pequena”.

A creche deve ser um suporte à mãe que trabalha,e mais ainda deve cuidar da criança em seu desenvolvimento emocional e cognitivo.

Uma das coisas que se deve observar na creche é que a educação da criança de 0 a 6 anos deve ser toda única, integrada, sem ruptura de conteúdos e métodos. (DIDONET, 2001). Outra coisa interessante é observar as cinco referências, citadas por Katz (1993 apud LIMA&BHERING, 2006): proporção de crianças para um adulto; qualificação e estabilidade dos profissionais da equipe; características das interações entre crianças e adultos; qualidade e quantidade de equipamentos, materiais e ambientes.

Não existe uma creche IDEAL, porque ninguém nunca vai alcançar aquilo que as mães desejam, no final das contas, nem as próprias mães alcançam, mas podemos buscar chegar o mais perto disso. Desta forma, se é necessário por o bebê na creche, a decisão deve ser bem pensada, as creches devem ser bem analisadas, para que seja uma decisão feita com segurança. A mãe estando segura ao entregar seu bebê aos cuidados de terceiros, seu bebê vai se sentir seguro ao estar lá.

É interessante a mãe buscar uma creche que tenha abertura, e busque proximidade com a família, pois devemos lembrar que as crianças pequenas estão muito mais ligadas às referências familiares, que a presença da família naquele ambiente, e uma relação equilibrada e saudável da família com os cuidadores na escola, vai facilitar a interação e adaptação do bebê. Observar as atividade que são realizadas, rotinas, horários, o momento reservado para o brincar, e para o descanso. Existem muitas creches sérias e comprometidas com o cuidado infantil, que não funcionam apenas como um “depósito de bebês”. A creche deve estar alinhada também com os valores da família, por exemplo, na alimentação, no tempo reservado ao brincar, o tipo e tempo de estimulação da criança. É importante perceber se a criança não será estimulada demais na creche, e questionar sobre isso, pois só em estar em outro ambiente com outras crianças já é estímulo demais para um bebê que ainda está no processo de reconhecimento do mundo. Observar se há exposição à televisão, também é um quesito importante. Até porque se for pra deixar o bebê hipnotizado em frente à tevê, ninguém precisa de creche né?

Outra coisa que deve ser atentada, apesar do bebê ainda não falar, é importante que a mãe nomeie e explique as situações, pois assim ela começa a delimitar o que está acontecendo, e o bebê se sente seguro.

Volto a ressaltar que para que tudo dê certo, a mãe tem que estar certa e segura da escolha. A adaptação não é só da criança, é da mãe também. Então, a mãe dá suporte à criança, e esta, por sua vez, sentindo-se segura, dará suporte à mãe.

E lembrar que a creche é um suporte. Um local de apoio para o desenvolvimento emocional e cognitivo do bebê. Os pais devem estar envolvidos em todos os momentos junto à creche, e não devem cobrar da creche aquilo que é papel da família. Caso a mãe tenha muitas dúvidas sobre a creche, vá mais vezes observar o funcionamento, como as crianças são tratadas, as atividade realizadas, converse com outros pais, com os funcionários, com outras crianças.

O importante é não se sentir culpada, até porque, dentro dos nossos valores culturais, a mãe é massacrada se deixa o bebê na creche, ou se abandona o trabalho para cuidar do bebê! Então, o importante é ela compreender o porquê de estar tomando essa decisão, e passar essa compreensão para o bebê/criança.

Existem muitas teorias que afirmam que a mãe é peça fundamental e essencial para o desenvolvimento do bebê, principalmente nos três primeiros anos de vida, tanto que em alguns países o Estado paga uma licença para a mãe (ou o pai) que optar ficar cuidar do seu filho durante esse período. Quando eu penso se isso funcionaria por aqui, acredito que não, porque ainda estamos numa luta de abrir caminhos para mulher no mercado de trabalho, e a opção de voltar para casa, pra cuidar dos filhos, poderia parecer um retrocesso, apesar de não o ser, pois não seria uma imposição, mas uma opção. E o que acontece é que atualmente não temos essa opção(*), a maioria das mulheres só tem uma que é a de retornar ao trabalho e deixar os filhos aos cuidados de terceiros, enquanto completam sua jornada de trabalho diário.  Sim, eu sei que é uma questão de escolha, mas também é uma questão de sobrevivência, e abrir mão do trabalho para ser mãe em tempo integral durante um período da vida do filho não é uma opção válida para muitas mulheres. Ainda estamos caminhando para um país em que todos terão as mesmas oportunidades, e a partir daí terão mais opções de vida e de sobrevivência. Tanto que acredito que quando isso acontecer, teríamos uma licença maternidade e paternidade mais justa com as necessidades das crianças, e dos familiares.

Agora, caso a culpa esteja muito pesada, caso você não encontre uma maneira de conciliar consigo, aconselho buscar o profissional de psicologia da creche, para conversar a respeito disso, e buscar orientações; e dependendo do caso, buscar uma psicoterapia, pois já sabemos que para o bebê ficar bem, a mãe tem que estar bem.

 

Abaixo segue o link de uma entrevista com Beatriz Ferraz sobre as creches e educação infantil, e acredito que vale muito à pena a leitura: Beatriz Ferraz fala sobre cuidados e conteúdos na creche

E outro link interessante Psicólogo ressalta a importância da creche no desenvolvimento das crianças


Referências Bibliográficas

 

DIDONET, Vital. Creche: a que veio… para onde vai… Em aberto. Brasília, vol. 18, n. 73, p. 11-27, jul. 2006.

LIMA, Ana Beatriz, BHERING, Eliana. Um estudo sobre creches como ambiente de desenvolvimento. Cadernos de Pesquisa. Vol. 36, n. 129, P. 573-596, Set-Dez 2006.

WEBER, Natália, SANTOS, Carolina, BECKER, Cintia, SANTOS, Tatiana. Filhos em creche no séc. XXI e os sentimentos das mães. Psicologia Argumento. Curitiba, vol. 24, n. 44, p. 45-54, jan/mar. 2006.