O construtivismo inicialmente foi atrelado à teoria do desenvolvimento cognitivo de Piaget (1896- 1980). A grande questão teórica de Piaget era como ocorria o processo de desenvolvimento do conhecimento, o que levou ao autor desenvolver sua Epistemologia Genética, como teoria da construção do conhecimento.

O termo construtivismo passou a ser relacionado à teoria piagetiana a partir das críticas do autor às teorias vigentes na época: empirismo e racionalismo.

O racionalismo afirma que o conhecimento é algo que pertence ao sujeito antes mesmo de este travar qualquer relação com o mundo exterior. Quer dizer, o conhecimento é algo que pertence ao homem de forma inata e, portanto, a maturação seria o principal elemento desencadeador do desenvolvimento das formas superiores da capacidade de conhecer a realidade. A concepção empirista do conhecimento, ao contrário, afirma que o conhecimento está contido nos objetos do mundo externo e, portando, nesta perspectiva, são os objetos que se impõem ao sujeito, tornando-se uma espécie de receptor passivo de um conhecimento que pré-existe à sua própria experiência. (Sousa, 2008, p.64)

Piaget discordando destas duas teorias, propõe que o conhecimento não é inato ou imposto, mas construído através da relação do sujeito com o mundo externo, com os objetos que tem contato.

Ao afirmar sua convicção de que o conhecimento se dá na interação entre o sujeito e a realidade externa, Piaget afirma que não existe conhecimento antes da ação do homem sobre o mundo e, assim, garante um lugar privilegiado para o sujeito que realiza o ato de conhecer. Para garantir um estatuto científico às suas idéias filosóficas sobre o conhecimento, Piaget parte para o trabalho experimental, desenvolvendo uma série de observações e experimentos com crianças de diferentes idades, desde o bebê ao adolescente. (Sousa, 2008, p. 64)

No construtivismo de Piaget, o processo de construção do conhecimento confunde- se com o próprio processo de constituição e de desenvolvimento do sujeito, na sua relação com o mundo, que é físico e ao mesmo tempo simbólico. Esse sujeito se define como tal a partir do momento em que se constitui junto com o objeto do conhecimento, que não é apenas, nem necessariamente, físico. Dessa forma, falar em construção do conhecimento significa falar ao mesmo tempo em construção do sujeito que conhece e do objeto a ser conhecido. Ambos “aparecem como resultado de um processo permanente de construção” (Coll, 1987, p.186).

A teoria de Piaget não possuía caráter voltado para educação, mas seus experimentos e escritos chamaram atenção dos educadores, que passaram a utilizar sua teoria no desenvolvimento de técnicas e práticas educativas, na tentativa de integrar o desenvolvimento infantil à educação. Passou-se a empregar o termo construtivismo para denominar conjunto de práticas pedagógicas que se fundamentam principalmente na concepção de que a criança adquire conhecimento de forma ativa diante da realidade, através da interação com o ambiente externo. O construtivismo trouxe uma modificação tanto na vivência da relação professor-aluno, como na óptica que se observa a relação aluno-aluno, no ambiente escolar.

Assim como Piaget, Vygotsky também formulou sua teoria sobre processo de desenvolvimento do conhecimento, e processo de aprendizagem contrapondo-se às teorias vigentes, “se contrapondo às idéias vigentes à época, entendia que a aprendizagem não era uma mera aquisição de informações, não acontecia a partir de uma simples associação de idéias armazenadas na memória, mas era um processo interno, ativo e interpessoal.” (Neves, Damiani, 2006, p.1)

Para compreender a teoria de Vygotsky devemos nos atentar que este concebe o homem como sujeito histórico e produto das relações sociais, de acordo com FREITAS (2000),

Ele se pergunta como os fatores sociais podem modelar a mente e construir o psiquismo e a resposta que apresenta nasce de uma perspectiva semiológica, na qual o signo, como um produto social, tem uma função geradora e organizadora dos processos psicológicos. O autor considera que a consciência é engendrada no social, a partir das relações que os homens estabelecem entre si, por meio de uma atividadesígnica, portanto, pela mediação da linguagem. Os signos são os instrumentos que, agindo internamente no homem, provocam-lhe transformações internas, que o fazem passar de ser biológico a ser sócio-histórico. Não existem signos internos, na consciência, que não tenham sido engendrada na trama ideológica semiótica da sociedade.

Vygotsky compreende que o homem interage no meio de forma dialética, onde transforma o mundo a partir do próprio mundo, um interfere no outro à medida que o homem entra em contato com novos objetos postos pelo meio social. Não abandona a idéia de que alguns indivíduos tenham maior predisposição a algumas experiências do que outras, e também não exclui a interferência de fatores biológicos e genéticos, mas não coloca tais fatores como primordial na constituição do conhecimento.

Em síntese, nessa abordagem, o sujeito produtor de conhecimento não é um mero receptáculo que absorve e contempla o real nem o portador de verdades oriundas de um plano ideal; pelo contrário, é um sujeito ativo que em sua relação com o mundo, com seu objeto de estudo, reconstrói (no seu pensamento) este mundo. O conhecimento envolve sempre um fazer, um atuar do homem. (REGO, 2002, p. 98)

A partir dessas duas teorias, estudiosos da educação propuseram abordagens pedagógicas baseadas em ambas: a abordagem cognitivista e a abordagem sócio-cultural.

De acordo com a abordagem cognitivista, o processo educativo deve criar situações de desequilíbrio para o aluno, mas adequadas para o nível de desenvolvimento deste, de maneira que seja possível o aluno construir noções e operações progressivas, essenciais para seu desenvolvimento intelectual. Para Piaget, a educação possui dois elementos fundamentais: intelecto e moral, que são indissociáveis.

O objetivo da educação não consiste na transmissão de verdades, mas em proporcionar ambiente em que o conhecimento seja construído, a partir da experiência de vida, para cada nível de desenvolvimento do sujeito. E ao mesmo tempo tem função de socializar o sujeito.

Dentro desta abordagem, a escola deveria iniciar o processo de aprendizagem do sujeito a partir da observação, para que o sujeito pudesse assimilar os conteúdos a partir da prática, em primeira instância, e após essa experiência pudesse trabalhar a partir da abstração, na assimilação da linguagem e dos conteúdos mais complexos.

Primeiro deveria se estimular o desenvolvimento motor das crianças, e sua ação verbal e mental, para que posteriormente possa intervir no processo sócio-cultural.

Já na abordagem sócio-histórica, baseada na teoria de Vygotsky, e no Brasil, representada por Paulo Freire, o processo educativo deve ser calcado na idéia de que o sujeito tem sua formação ontológica (vocação) e as condições em que está inserido (contexto).

A escola é mediadora da apropriação do conhecimento do sujeito, “a insituição escolar foi criada para desempenha uma função: a de comunicar às novas gerações os saberes socialmente produzidos, aqueles que são considerados, em um determinado momento histórico, válidos e relevantes.” (Lerner, 1996, p. 95)

O que diferencia a abordagem de Vygotsky para Piaget, é que naquela não há a idéia de prontidão do aluno para adquirir determinado conhecimento, e que apesar de não haver uma negação do fator biológico, a teoria de Vygotsky dá ênfase maior à relação sócio-cultural-histórica do sujeito com o mundo.

De acordo com Palangana (1994), tanto Piaget quanto Vygotsky explicam a relação entre aprendizagem e desenvolvimento baseados em princípios interacionistas. Ambos diferem na medida em que Piaget (1973) tende a supervalorizar as funções do sujeito na construção do conhecimento ao enfocar a dimensão maturacional e Vygotsky (1984) destaca as relações dialéticas de construção do mesmo conhecimento quando supervaloriza o papel da interação e da aprendizagem. Em função disso, destaca-se o fato de, recorrentemente, ser atribuído à Piaget o termo de construtivista e à Vygotsky ser reservado a denominação de socioconstrutivista (BANKS LEITE, 1994) (Souza Filho, 2008, P. 271)

Desta forma, compreende-se que teoria construtivista tem uma concepção que contextualiza o sujeito e o faz ativo dentro do processo de aprendizagem e desenvolvimento, retirando da posição passiva, em que os sujeitos são somente “esponjas” de conhecimento, mas que esse conhecimento passa a ter significado, e desta forma adquire um sentido crítico da realidade.

 

Referências

Jobim e Souza, S. J. (2008). Construtivismo: a história de uma palavra como produção crítica do conhecimento e das estratégias educacionais. Memorandum, Belo Horizonte: UFMG, Ribeirão Preto: USP, v.15, out. 2008, p.61-69. Disponível em: http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/a15/jsouza01.pdf. Acessos em 28/05/2011

Coll, C. As Contribuições da Psicologia para a Educação: Teoria Genética e Aprendizagem Escolar. Em L. Banks-Leite (Org). Piaget e a Escola de Genebra. (pp.
164-197). São Paulo: Cortez. 1987

FREITAS, M. T. de A. As apropriações do pensamento de Vygotsky no Brasil: um tema em debate. In:

Psicologia da Educação. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia da Educação. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, n.10/11: 9-28. 2000

REGO, T. C. Vygotsky: uma perspectiva Histórico-Cultural da Educação. Rio de Janeiro, Vozes, p.138. 1999

SOUZA FILHO, Marcílio de Lira. RELAÇÕES ENTRE APRENDIZAGEM
E DESENVOLVIMENTO EM PIAGET E EM VYGOTSKY: dicotomia ou compatibilidade? In: Rev. Diálogo Educ., Curitiba, v. 8, n. 23, p. 265-275, jan./abr. 2008

 

 

*Trabalho apresentado no Mundo Unifor em 2011.