Ao buscar sobre o “processo educativo” no Google nos aparecem vários artigos voltados para o tema nas mais variadas situações, “o processo educativo na saúde”, “ecologia e o processo educativo”, “o processo educativo cultural”, dentre outros exemplos. A partir desta observação pode-se perceber que o processo educativo é algo contínuo e presente no cotidiano.

A educação acontece, então, dentro de vários contextos o que faz com que todos os cidadãos sejam educadores, pensando a educação como algo maior e mais complexo do que a educação formal, vista como a transmissão de um conhecimento. A sociedade como um todo participa desse processo, tanto como agentes de educação, como aprendizes.

De acordo com Hannah Arendt (1990) educar é introduzir as crianças ao mundo, por estas serem recém chegadas a ele, necessitam da educação para conhecer a cultura, história, e etc. para que desta forma possam apreendê-lo e transformá-lo, assim, educar não é somente transmitir conhecimentos, mas preparar as crianças para o mundo, para que possam cuidar deste e transformá-lo para o futuro.

A educação e o educar.

A educação é uma das actividades mais elementares e mais necessárias da sociedade humana a qual não permanece nunca tal como é mas antes se renova sem cessar pelo nascimento, pela chegada de novos seres humanos. Acresce que, esses recém- chegados não atingiram a sua maturidade, estão ainda em devir. Assim, a criança, objeto da educação, apresenta-se ao educador sob um duplo aspecto: ela é nova num mundo que lhe é estranho, e ela está em devir. (ARENDT, Hannah, p. 37, 1990)

O ato de educar não só está presente no ato de instruir a algo, como nos define o dicionário, mas encontra-se presente também no ato de apresentar ao educando o mundo no qual ele está inserido. De acordo com ARENDT (1990), educar é apresentar às crianças que são novas nesse mundo como ele é e apresentar a realidade, além de transmitir conteúdos especializados da ciência, a fim de fazer com que essas crianças se responsabilizem pelo mundo em que se encontram, tornando-se capazes de transformá-lo.

A educação, partindo desta perspectiva, tem o papel transformador da sociedade para que esta se resguarde, como se a partir da educação fôssemos instruídos a cuidar do mundo para que este continue existindo para os que nele habitam.

Para ARENDT (1990), a educação também é política, no sentido de formar cidadãos, e responsabilizá-los para sua existência e ação.

Ricardo Vieira, em seu artigo O processo educativo e contextos culturais: notas para uma antropologia da educação (2006), nos fala da complexidade do processo educativo, já que este além de envolver várias ciências, diferencia-se entre os diversos contextos sócio-culturais.

Paulo Freire, em Pedagogia da Autonomia, afirma que: “[…] formar é muito mais do que puramente treinar o educando no desempenho de destrezas” (FREIRE, 1997, p. 15) e depois mais adiante: “…ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção”.

Desta forma, entende-se que educar é proporcionar um ambiente em que haja uma construção de um saber, e não simplesmente a assimilação dos conteúdos. Aquele saber deve fazer sentido, e de acordo com ARENDT (1990), o ser humano busca incessantemente um sentido para sua existência, e esse sentido é passado através da educação.

Podemos entender a crise na educação proposta por Arendt ao notarmos que na modernidade os sentidos que o homem havia posto na existência passam a se diluir, levando à uma crise da existência do homem, e é neste ponto que a educação torna-se tão importante, pois ela que reconstrói esse sentido perdido, não que retorne ao antigo, mas re-elabora, na tentativa de preservar o mundo e o homem. O ato de educar se torna então o ato de buscar sentido e incutir sentido.

A busca de sentido é a busca primordial do ser humano, segundo a autora, então o individuo busca esse sentido através da educação. E esse ato de educar deve conter nele próprio sentido, para que haja disposição dos indivíduos para isso.

Desta forma, aproximamos a autora a Paulo Freire, que nos fala que o sujeito só aprende quando aquele saber faz sentido para ele, quando traduz sua própria realidade.

O sentido de educação para Hannah Arendt, de acordo com Susie Rurie:

Nos sentidos de educação que se configuram a partir da modernidade, percebe-se que, a par de preparar o indivíduo para o conhecimento e para o domínio das técnicas e informações necessárias à manutenção da vida produtiva, a formação desenvolvida no âmbito da família e da escola visa, de modo especial, habilitá-lo para o convívio social e para a adequação às normas coletivas, num processo que envolve a internalização de princípios morais e éticos. O processo educativo passa a representar a condição por meio da qual o indivíduo se constitui como ser autônomo, livre, capaz de pensar e de agir por si mesmo, ao mesmo tempo em que deve assegurar que os acordos sociais sejam mantidos. Portanto, junto ao intuito de promover o desenvolvimento individual, família e escola atuam como importantes instâncias de produção e reprodução das relações sociais, na medida em que cooperam para o estabelecimento de vínculos sociais e para o acatamento das leis às quais esses vínculos encontram-se sujeitos. A educação encerra relações que visam estabelecer ao mesmo tempo a obediência a algum tipo de autoridade e as condições para o desenvolvimento da autonomia. (Pág. 179, 2007)

De acordo com ITURRA, Raul (s/d), o processo educativo é constituído pelo ato de ensinar e aprender, “o ensino é repetir, criando uma subordinação; a aprendizagem é descobrir, criando uma relação de comunicação.”

A educação serve para nortear, a partir da tradição e da história, a ação e o pensamento. É necessário que seja permitido àquele que exercer o papel de educador – nota-se que educador não é somente o professor em sala de aula, mas aquele que tem por papel passar adiante conhecimento – autoridade para que ele exponha o conhecimento; as crianças, de acordo com a autora, por serem novas nesse mundo que já existia antes delas, e vai continuar existindo após delas, devem ser submetidas à autoridade dos adultos para que re-conheçam o mundo como ele é. A autoridade não é relacionada ao exercício de poder autoritário, mas está atrelado ao conceito de responsabilidade pelo mundo, onde há exercício de força e poder já não existe autoridade. (ARENDT, 1990)

A perda de autoridade não pode existir. As crianças não podem recusar a autoridade dos educadores, como se estivessem oprimidas por uma maioria adulta – ainda que, efectivamente, a prática educacional moderna tenha tentado, de forma absurda, lidar com as crianças como se se tratasse de uma minoria oprimida que necessita de ser libertada. Dizer que os adultos abandonaram a autoridade só pode portanto significar uma coisa: que os adultos se recusam a assumir a responsabilidade pelo mundo em que colocaram as crianças. (ARENDT, Hannah, p. 44)

Processo educativo.

De acordo com VIEIRA (2006), o processo é composto da dicotomia ensino-aprendizagem, e que é algo complexo, e apesar de universal, varia de cultura para cultura; está presente no cotidiano, tendo em vista que a educação tem uma relação dialética com a sociedade, uma vez que ambas interferem uma na outra. Não se sabe onde começa ou termina a influência de uma sob a outra. E desta forma, ao sermos cidadãos também somos educadores.

O processo educativo ocorre não somente dentro do espaço escolar, mas as instituições sociais e as relações interpessoais também são meios educativos. “O processo educativo é, em conseqüência, mais amplo do que é o ensino em instituições especializadas.” (ITURRI, Raul, 1994)

Entende-se, a partir de ITURRI, 1994, e ARENDT, 1996, que a criança tem por si só a predisposição à aprender, pois ao aprender adquire respeito dos demais, além de adquirir conhecimento sobre a realidade em que vive, dando um sentido àquela sociedade. O processo educativo básico é o reconhecimento e diferenciação, onde a criança passa a reconhecer o diferente, e reconhecer o mundo em que vive norteando suas ações diante do mundo.

De acordo com pesquisa realizada por alunos da pós-graduação da UFScar,

As investigações que vínhamos realizando, até então, nos permitiam colocar em nosso horizonte um pressuposto de que em todas as práticas sociais há processos educativos, portanto, todas as práticas (e aqui falamos de práticas humanas, como requer o campo da Educação, dentro das Ciências Humanas) são educativas. (p. 2)

De acordo com MARPEAU (2002), o processo educativo está tão enraizado na sociedade que ele se torna invisível, como se as elaborações do pensamento e da ação fossem naturais. Os processos educativos partem da elaboração de sentido na existência. E a partir disso se torna também um processo de construção da identidade do indivíduo.

Conclusão

A partir da teoria apresentada, pode-se perceber o quanto a filosofia de Hannah Arendt está presente na fundamentação dos processos educativos, e o quanto tais processos são construções sociais.

Pôde-se perceber no decorrer das leituras, durante a pesquisa para a elaboração deste trabalho, que, estamos em um contínuo processo de educação e que essa educação nos serve para compreender a realidade que nos envolve e desta forma encontrarmos maneiras criativas e inovadoras de nos mantermos, de existirmos e desta forma transformar o mundo para o novo.

O papel do educador nesse contexto moderno seria, então, preparar aqueles que estão chegando ao mundo, expondo a realidade e o mundo como ele é, para que eles possam ser agentes transformadores dessa realidade. O educador fica entre a tradição e o passado, e o novo e revolucionário.

 

Referências

ALMEIDA, Vanessa Sievers de. Educação, histórias e sentido em Hannah Arendt. Texto apresentado no GT-17: Filosofia da Educação – Anped. Disponível em: <http://www.anped. org.br/reunioes/31ra/1trabalho/GT17-4307–Int.pdf>.

ARENDT, HANNAH. A Crise da educação in: Entre o Passado e o Futuro. Trad. M. W. Barbosa. Sao Paulo, Perspectiva, 1990

ITURRA, Raul (1994) “O processo educativo: ensino e aprendizagem?” in Revista Educação, Sociedade & Culturas, no1, Afrontamento, Porto, (pp.29-50).

OLIVEIRA, Maria Waldenez de, SILVA, Petronilha Beatriz Gonçalves, JUNIOR, Luiz Gonçalves, GARCIA- MONTRONE, Aida Victoria, JOLY, Ilza Zenker . PROCESSOS EDUCATIVOS EM PRÁTICAS SOCIAIS: REFLEXÕES TEÓRICAS E METODOLÓGICAS SOBRE PESQUISA EDUCACIONAL EM ESPAÇOS SOCIAIS, in: http://www.anped.org.br/reunioes/32ra/arquivos/trabalhos/GT06-5383–Int.pdf

ROURE, Susie Amâncio Gonçalves de. Educação e crise na autoridade em Hannah Arendt. Revista Educação , Goiânia, v. 10, n. 2, p. 179-190, jul./dez. 2007.

 

 

(Trabalho publicado nos ANAIS do Mundo Unifor, em 2011)