Já faz um tempo que eu penso sobre essa questão: viciar meu filho no colo. Todo dia, quando leio algo do tipo, ou escuto essa frase vindo dos mais diversos lugares, fico pensando no que as pessoas querem dizer com isso…

Meu filho tem um mês. Um mês! Quando ele chora, ele não sabe me dizer se está com fome, com gases/cólica, ou com alguma dor em algum lugar, eu tento traduzir, porque se não ele nunca vai conseguir satisfazer as necessidades.. Erro muito na minha tradução, às vezes o choro parece de gases ou fome, mas é de outra coisa, como essa semana, que eu não sabia mais o que fazer, eu e o pai tentamos de tudo para acalantar, achando que podia ser gases ou fome, até que descobrimos a inflamação no ouvido, e fez todo sentido do mundo seu choro “sofrido” e o fato de que ele não conseguia dormir.

O bebê chora, chora de dor, de incômodo, de fome, e vem alguém e me diz:

– menina, tu vai viciar ele no colo.

E eu vou fazer o quê? Quem me diz isso insinua que eu devo deixar o Hugo chorando desesperado, no berço, até cansar, e dormir de exaustão? E a dor? E o fato de eu ser a mãe dele e ele não poder contar comigo para ajudar, da forma que eu posso, amenizar seu sofrimento? Eu, pelo menos, quando sinto dor, seja física ou emocional, ainda ligo pra minha mãe, pra ouvir palavras que me acalmem. Eu sei que não dou conta, tanto que quando minhas opções se esgotam, o jeito é cantar e embalar, até que ele se acalme e possa dormir novamente. O que eu não entendo é que me cobrem que eu negue ao meu filho calor, amor e carinho. Depois estão colando pelas ruas, ou fotografando por aí, cartazes suplicando por um pouco mais de amor nessa vida, reclamando que as pessoas não se preocupam mais umas com as outras; não estão disponíveis para ouvir o sofrimento alheio, nem disponíveis para cuidar, ou amar.

E aí eu fico com algumas questões: se eu nego ao meu filho atenção no seu momento de desespero, como ele vai adquirir confiança de que pode contar com os pais dele quando ele estiver precisando? já que eu, ao negar atenção no seu desespero – que é urgente e real, estou mostrando que não estou ali para acalmar seus nervos… E aí essas pessoas me dizem para negar colo à um bebê desesperado, pois ainda não compreende o que se passa, ou se compreende não verbaliza na mesma linguagem, como essas pessoas acham que chegamos ao ponto de suplicar amor as vinte e quatro horas do dia, em todas as redes sociais, e nas conversas cotidianas? Porque se a pessoa me diz pra negar carinho e atenção – que são demonstrações de afeto… Você só dá aquilo que tem, e você só tem porque já recebeu. Um dia eu vi numa chamada de jornal que uma porcentagem altíssima da população brasileira não sabe o que é carinho, hoje isso não me surpreende, diante da forma como as pessoas encaram seus bebês.

A criança, naturalmente, vai encontrar formas de lidar com seu desespero, com a falta, com o mundo, com os possíveis sofrimentos, a não ser que eu seja a responsável por bloquear essa busca. Vi em muitas mães o medo de não ser mais necessária/importante na vida de seus filhos fazer com que elas não permitissem que seus filhos começassem a andar sem que elas estivessem ao lado, que elas antecipassem as necessidades das crianças para que elas não passassem por nenhum momento de insatisfação e que elas se sentissem imprescindíveis, e por aí vai… Então, o problema não é o meu filho ficar viciado no colo, naturalmente ele vai diminuir essa busca a todo momento por colo, e vai procurar quando precisar de fato, então, o problema é como eu lido com o momento em que ele se acalma e deve ir pro berço dormir, sozinho; ou como eu lido com o tempo que ele fica sozinho olhando para o móbile, ou para o céu, sem precisar de mim, sem chorar, só percebendo o mundo e as cores, ou quando ele começar a andar e o mundo for mais interessante do que o mundo da mãe…

Não nego afeto, desde a menor demonstração, fico doída com a falta de amor e doçura no mundo, por quê, então, eu seria a primeira a negar na hora em que isso me é solicitado?

 

Segue abaixo um video que uma amiga me mandou, depois de ter presenciado comigo a cena “menina, tu vai viciar ele no colo”, e de compartilhar comigo a mesma opinião:

O nascimento e a família: você sabe o que é ter um filho?

https://www.youtube.com/watch?feature=youtu.be&v=sh2z3WsyqCY&app=desktop