Amamentando numa manhã desses meus primeiros dias de mãe, ouvindo Mumford & Sons, ao ouvir essa frase me perdi por uns instantes refletindo sobre o que eu estava fazendo naquele exato momento. Olhei para Hugo mamar, de olhinhos fechados, fazendo uma cara de satisfação que me encheu de felicidade… Agradeci à vida por esse momento, e agradeço todos os dias por ter tido tanto amor na minha vida, que me pudesse fazer capaz de agora ter tanta dedicação e amor por essa pequena pessoa que depende de mim e me faz viver na ordem da urgência,  apesar das 3h de sono por noite e quase nenhuma por dia.

Sou feliz por viver cada instante de alegria que meu filho me proporciona, com seus (reflexos, como diz o pai) sorrisos banguelos enquanto mama, e fico emocionada cada vez que ele olha pra mim mamando e eu converso e canto pra ele.

Sou feliz, e um dia irei agradecer ao Hugo por ter me devolvido meu melhor, que eu achava que tinha perdido em algum lugar da minha mocidade. Hoje, eu canto músicas que tinha escondido na memória, e tinha esquecido como eu gosto de fingir que canto; eu me olho no espelho e vejo aquela que eu pensei ter desaparecido de mim, com paciência, com amor, com dedicação, com disposição de quem nunca perdeu o encanto pelas coisas… E agradeço ao meu filho, por ter me devolvido tanta vida, ter me devolvido meu bom humor, apesar de tão poucas horas de sono.

Ver meu filho dormir tranqüilo é recuperar a fé, e mais do que isso, é recuperar a vontade de resistir. Resistir ao que minha cidade tem se tornado, e encontrar coragem de continuar tentando, do jeito que eu sei, que eu consigo, que faço o meu melhor. É dizer baixinho pra ele que a mamãe vai dar o melhor dela nessa vida, pra que a vida seja algo a se orgulhar, e ter mil motivos para rir, todos os dias.

Se eu soubesse o quanto eu sou determinada, o quanto tenho facilidade de me adaptar, reorganizar e tirar do cansaço o bom humor, teria feito muito mais. As pessoas dizem que um bebê vai virar a vida de pernas pro ar, desorganizar tudo, mas que vale à pena. Por outro lado, eu digo, um filho organiza a vida, organiza os sentimentos, desde que soube da vinda de Hugo para esse mundo, minha vida entrou num eixo que eu protelava para entrar.

Não nego o cansaço, eu vivo com sono, durmo sentada, tenho que escolher entre tomar banho, dormir e comer no intervalo das mamadas (que não passa de 3h), mas a sensação é que esse cansaço só existe quando o mundo lá fora me convoca, mas na relação mãe-bebê o que existe é plena alegria, e amor, inclusive no sono. Eu estou exausta, cansada mesmo, às vezes queria um dedo de prosa com meu marido, e durmo no início da conversa… mas basta Hugo chorar, ou o leite me dizer que daqui a pouco é hora de amamentar mais uma vez…

Durante toda gravidez muitas pessoas me falavam coisas como “ser mãe é padecer no paraíso”, não sei de onde vem – não sei se é coisa da cultura cristã – de colocar tudo como um sacrifício para que faça sentido ou seja merecedor, mas eu não me sinto sacrificando nada da minha vida por isso, muito pelo contrário; como também não vejo como um sofrimento, em nenhum momento dessas três semanas me vi como uma “sofredora, mas merecedora/guerreira”, me vejo como uma mulher feliz, cheia de vida e com mais planos, cheia de vontade, e de amor.