Fazem dias que no Facebook tem aparecido várias coisas sobre as “crianças terceirizadas”, um assunto que se debate faz um booommmmm tempo, principalmente na educação, pois os professores e as escolas são quem mais sofrem com essa não-responsabilização dos pais pelo desenvolvimento e educação dos filhos. Eu li os três artigos sensação da rede social, e mais uns em revistas e jornais sobre o tema, e sinceramente, depois de pensar sobre, não vi nada de novo. Basta ir numa sala de professores na hora do recreio, os dasabafos e as dificuldades de lidar com os pais e os filhos cada vez mais majestades é presente, e cotidiana, independente da escola – seja pública, privada, pequena, média ou grande.
Passei a tarde hoje pensando sobre isso, não acho justo, nem um pouco justo, chegar e culpar os pais que “terceirizam” seus filhos, julgá-los por falta de bom senso, ou por falta de responsabilidade, se existem N razões para que isso seja um sintoma recorrente nas famílias atuais.
Você pensa, “que mãe é essa que abre mão de ficar com seu filho, pra ir ao salão” ou “que mãe é essa que deixa o filho com a babá para se divertir na balada com as amigas”, ou “que mãe é essa que não consegue ficar os quatro meses da licença que é um direito, com seu filho” e mais milhões de julgamentos são feitos diariamente às mães e aos pais que abrem mão do cuidado dos filhos, pois na nossa cultura o trabalho e uma escola de qualidade é muito mais importante. De que adianta julgar esses pais, que abrem mão do tempo de qualidade, de conhecer seu filho, de curtir a infância e relembrar como era gostoso ser criança, se não repensamos também o lugar que ocupamos, os discursos que repetimos?
A escola está saturada de crianças órfãs de pais vivos, mas que escola é essa? Foi a mesma escola que educou esses pais para o mundo do trabalho, que desde que esses pais eram crianças incentivavam de forma absurda o desejo e a escolha de uma carreira, que os orientadores educacionais e alguns psicólogos dessas escolas orientavam e aconselhavam que essas crianças não fizessem esportes e atividades lúdicas, pois precisavam concentrar muito mais nos estudos, porque o vestibular não espera. Então, como esses pais poderiam ter o “bom senso” que se diz perdido, se eles não foram educados para tal? Então, se a escola educa para este caminho, como ela pode também exigir que esses pais participem, de algo que eles não compreendem o sentido de participarem, já que também são filhos de outros pais que trabalhavam muito, trabalhavam foram, e não tinham tempo? Fora, a questão da culpa e do sermão. Esses pais já carregam a culpa de não ter tempo, porque não ter tempo é a maior mentira e desculpa de todas, porque aprendemos que não temos tempo para nada… Somos todos como o coelho branco, sempre atrasados.
Aí também esquecem de ponderar quantas mulheres de fato desejaram ser mães quando se tornaram mães? Quantas de fato tinham certeza que queriam isso pra vida? Quantas não escolheram esse caminho porque precisavam seguir o protocolo? E quantas não podem nem PENSAR em questionar essa “escolha”, pois o peso da culpa seria mil vezes maior… Quantas foram pressionadas pelas mães e companheiros a terem filhos, e nem sequer puderam se perguntar se de fato elas queriam…
Aí tudo bem, a mulher se torna mãe – desejando ou não – no início da gravidez já perguntam sobre a licença, e como você pensa em fazer quando voltar ao trabalho. Gente, a mulher mal engravidou, nem pensou no nome do bebê, e já tem que pensar na volta ao trabalho… E aí no percurso dessa gravidez são mil perguntas sobre carreira, conciliar trabalho, se você já escolheu a creche, ou se vai ter babá, e ao mesmo tempo, mil críticas sobre as mães que abandonam os filhos, sobre as mães que não tem tempo, sobre as mães que não educam. É muita contradição para uma situação só.
E o pai? Coitado do pai. Não sabe mais o seu lugar na relação, quando vive num mundo em que todos os bebês são reis e príncipes, que mandam e estão vindo para tomar a mamãe do papai. O filho não veio pra ser rei, talvez o príncipe da casa, até que ele vá ser rei na sua própria casa, com sua própria família. O filho não veio para separar e tomar a mamãe do papai, e é bom que o papai saiba disso… É saudável que em algum momento dessa relação, o filho saiba que é filho, o pai ocupe seu lugar de pai e de marido, e mãe saiba que seu filho não veio para completar a falta que a existência nos causa. A falta é essência. “Nós não temos um filho, somos tidos por eles” (ouvi essa frase e achei sensacional).
E além de todas as questões, existe uma, que à mim afeta muito mais, vivemos na “terra do nunca”, onde ninguém mais quer se adulto, ser jovem, e ter todo o tempo pela frente é muito mais interessante. Ninguém quer esse papel. Nem mesmo o Estado. Como pode ser exigido de uma sociedade de adolescentes o papel de adulto, se ninguém quer ocupar este papel?
Falar, criticar, e julgar a forma como a maioria das famílias atuais educam seus filhos não é simplesmente jogar informações, e culpabilizar mais ainda essas famílias por seguirem o curso da manada.
Perceber como se chegou até aqui, e pensar em como queremos que a vida continue, faria muito mais sentido, mas até as matérias e artigos que li sobre esse tema  em jornais e revistas, e não vi uma que não partisse da experiência subjetiva para falar com “propriedade” sobre…

Diz Hannah Arednt, no livro “Entre o passado e o futuro” (eu acho sensacional para se questionar a crise da modernidade), que quem não tem responsabilidade com a humanidade, deveria ser proibido de ter filhos. Acho que estamos tão presos no nosso mundo, que esquecemos o que é responsabilidade e humanidade. Estamos tão presos no prazer e no imediato, que esquecemos… Falamos tanto de liberdade e individualidade, que esquecemos que o mundo é maior do que o nosso próprio umbigo, e ter filhos deveria nos lembrar disso, mas ao invés disso, aumentamos o umbigo um pouco mais, para o mundo continue girando em torno dele… É complicado exigir responsabilidade de pais que foram educados no ideal liberal, do individualismo, do consumo, do tudo pode, da ditadura midiática. Agora, se isso gera caos, gera uma sociedade cada dia mais adoecida, e uma infância morta pela pressa dos ponteiros do relógio do sr. coelho branco ou silenciada pelo som dos joguinhos do tablet, o buraco tá mais embaixo, e pouca gente quer se baixar pra isso…